femalegaze
OLHARES FEMININOS

Afinal, o Que é Female Gaze?

Female gaze literalmente significa “olhar feminino”, mas para entendermos melhor o que é e do que se trata precisamos voltar para a origem do termo male gaze, cunhado pela teórica cinematográfica Laura Muvley. O termo, que surge em seu artigo Prazer Visual e Narrativa Cinematográfica“, é amplamente utilizado na industria do cinema até hoje e serve para descrever a maneira como as mulheres eram (são) retratadas nos filmes como um objeto sexual para satisfazer o “olhar masculino”. Utilizando-se do conceito de gaze, Muvley explica que elas sempre aparecem como algo a ser observado e nunca como observador – papel esse reservado para os personagens masculinos e claro, para os homens na platéia. Parece complicado, mas basta lembrarmos do bom e velho 007 e suas Bond Girls, que tudo começa a fazer mais sentido.

Durante décadas nos acostumamos a assistir atrizes lindíssimas com pouco a dizer ou com falas que dificilmente correspondem à qualquer diálogo entre pessoas normais. Um exemplo muito comum é o da Maniac Pixie Dream Girl – aquela garota meio mágica que existe só para ajudar o protagonista a perseguir seus sonhos e se jogar em aventuras. A falta de personagens femininos complexos já é um assunto amplamente discutido no meio audiovisual e existe até um teste para saber se o seu roteiro apresenta desigualdade de gênero na tela e, adivinhem?, a maioria deles falha. Com apenas três perguntas simples, o Teste de Bechedel quer saber se sua história: tem duas mulheres? elas conversam uma com a outra? sobre alguma coisa que não seja homens? E acredite se quiser, muitos dos que passam no questionário ainda mostram um universo dentro do male gaze.

Super heroínas em roupas desconfortáveis correndo de salto alto. Vítimas nuas e sensuais em cenas de terror. Vilãs femme fatale. Lolitas. Casais lésbicos que mais parecem saídos de um pornô. Até mesmo dramas com poderosos discursos podem exibir silhuetas filmadas de cima a baixo. Já vimos esses todos. Mas e o female gaze então? É só fazer o contrário? Juntamos um grupo de caras bem gostosos sem roupa e está feito? Hum…não. Desculpa, Magic Mike. Apesar do meu enorme apreço pelos movimentos do Channing Tatum ao som de tão precioso clássico do hip hop, tudo nessa narrativa ainda é sobre uma visão masculina da vida. Isto porque além de toda a exploração visual dos corpos ainda temos o problema do discurso e de quem o discursa.

Por isso não basta simplesmente inverter os papéis aqui. Enquanto o male gaze é fruto de um conjunto de suposições do mundo e de como as pessoas agem dentro de uma expectativa de gênero conservadora e machista, o female gaze é mais difícil de definir porque é a tentativa de dissolver tudo isso. O que as mulheres pensam? O que sonham? O que sentem? Como sentem? Essas são respostas que podem ser exploradas em filmes, séries e livros através de personagens complexas, narradoras ou do próprio discurso da obra em si, quando abordamos os assuntos levando em consideração vivências e vozes femininas e feministas.

Homens podem produzir para o famale gaze? Com certeza há quem diga que não. Um homem cis nunca vai sentir na pele determinadas opressões ou possuir as mesmas vivências. Mas negar a capacidade desses artistas de criarem obras feministas é para mim negar a capacidade humana de se colocar no lugar do outro. E esse exercício de empatia não é umas das coisas mais bonitas sobre a arte? Além disso, não consigo escrever esse artigo sem me lembrar de “Uma Mulher Sob Influência”, escrito e dirigido por John Cassavetes – um dos muitos exemplos que me respondem essa pergunta de maneira afirmativa. Portanto sim, acredito que eles podem e devem produzir mais trabalhos que desafiem o seu olhar.

Não existe hoje uma verdade absoluta sobre esse assunto, mas sem dúvidas todo mundo entende que a melhor maneira de mudar o jogo é através de uma maior diversificação no mercado de trabalho nessas áreas. Mais mulheres de todos os jeitos, origens, cores e sexualidades escrevendo, dirigindo, produzindo, editando…enfim, criando. Felizmente, hoje mais do que nunca temos uma onda de conteúdos que caminham nessa direção. Parece que alguém se lembrou que nós também assinamos Netflix e compramos ingressos de cinema.


Todas as imagens utilizadas nesse artigo são de autoria própria: @aletraeffe.

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Flavia Doria é jornalista e fundadora do aletraeffe.com

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