Sociedade

Amiga, Seu Feminismo Chega às Urnas?

Provavelmente um dos anos mais difíceis da nossa geração, 2020 se aproxima do fim, mas não sem antes apresentar mais um grande desafio: as eleições. No Brasil, as votações municipais decidem em novembro quem serão os próximos prefeitos e vereadores do país. Mas em um momento em que discutimos tanto sobre lutas sociais e feminismo, nas ruas e nas redes do mundo todo, eu gostaria de saber se essa conversa se converte em votos. — Amiga, o seu feminismo chega às urnas?

Se não chega, deveria. Porque parte fundamental daquilo que se deseja obter com luta feminista só é possível através da política institucional. Quando falamos de direitos reprodutivos, de penalização da violência e/ou assédio; melhores condições e equidade no trabalho e na educação; direitos LBTQ; saúde da mulher etc …falamos sobre grandes conjuntos de diversas medidas políticas (sejam elas executivas, legislativas ou judiciárias) que podem criar estruturas mais ou menos favoráveis às mulheres e outras minorias sociais. Enquanto é verdade que podemos fazer muito entre nós pra desmantelar a estrutura que nos oprime, seja nas nossas relações pessoais, seja através dos nossos lugares de poder, as transformações mais objetivas ainda estão nas mãos de quem colocamos no governo. 

O voto das mulheres a favor de seus próprios interesses coletivos enquanto gênero orpimido é tão importante quanto a luta das mulheres em si, porque um não existe sem o outro. Se o nosso direito de votar foi uma conquista feminista, o que estamos fazendo quando não dedicamos nosso voto a esta causa? Mais ainda, o que estamos fazendo quando nem sequer votamos, desperdiçando esse direito que custou a vida e a liberdade de sufragistas no mundo todo?

Claro que, sendo o feminismo um conjunto de pautas tão plural quanto o próprio conceito de “mulher” parece normal que as intenções de voto em torno dele se dissipem em um mar de candidaturas do espectro da esquerda. Mas eu duvido se estamos sequer procurando agendas feministas na hora de decidir em quem votar. Isso porque a campanha política, não só no Brasil, é feita da repetição de figuras até a extrema exaustão, na tentativa de estabelecer uma relação de proximidade e confiança com os candidatos. E não se engane, esse “rosto conhecido” que você considera confiável é, estatisticamente, de um homem.

Temos um problema de representatividade de gênero (e não só) muito grande no país. Mesmo sendo hoje 52,5% do eleitorado, as mulheres estão longe de ver esse número representado na política. De acordo com dados do prório TSE (Tribunal Superior Eleitoral), elas são apenas 11,6% de prefeitas e 13,6% de vereadoras. Dentre os deputados federais, apenas 10% são mulheres. Isso não acontece por acaso. A diferença entre os valores destinados às candidaturas de homens e mulheres dentro dos partidos é tão abissal que, em 2018, o TSE criou uma regra que obriga que 30% das verbas dos fundos eleitorais seja direcionado a elas. Por isso, se você eleitora pensa em depositar o seu voto esse ano em um homem é porque provavelmente não conhece ainda nem metade das candidatas mulheres existentes.

Mesmo dentro da esquerda, ainda somos convidadas a esperar e eleger o melhor candidato homem, cis, branco, etc, na esperança de que ele carregue pra frente aquelas pautas específicas sobre problemas que ele nunca viveu. Quem sabe com sorte ele nos dê uma vice candidata. No jogo das eleições é preciso ir além da primeira página do Google para encontrar alguém que te represente. Também precisamos superar o voto de sobrevivência estratégica, onde passamos uma vida inteira simplesmente tentando evitar a eleição de um monstro. Votar com a maioria, mesmo que a gente não perceba, pode muitas vezes ferir os nossos próprios interesses ou deixar de eleger alguém que seria muito bom pra a comunidade a qual pertencemos. 

Acredito que buscar uma maior representatividade e levar o feminismo para as urnas significa não só crescer esse debate para a esfera pública, mas também honrar a nossa própria história na luta por direitos. E parafraseando o discurso marcante da atriz Michelle Williams nos Oscars: as mulheres — e aqui acrescento as pessoas trans e de gênero não conforme — deviam começar a votar tendo em mente os seus próprios interesses porque é isso que os homens vêm fazendo há séculos.

Flavia Doria é jornalista e fundadora do aletraeffe.com

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