Autoamor

Ano Novo: Metas, Pausas e Dores nas Costas

A cada ano novo, querendo ou não, as listas aparecem. Lista de conquistas do ano anterior, lista de enganos do ano anterior e, a mais cobiçada de todas, lista de metas para o próximo ano. Se você não se deu ao trabalho de sentar e escrever isso tudo, muito provavelmente porque o champagne é demais e já nos basta comer uvas, pular ondas e abraçar a todos exatamente à meia noite, ao menos pensou sobre o assunto. Quais foram as minhas realizações nos últimos 12 meses e quais serão nos próximos?

Para uma amante de palavras organizadas em tópicos em um papel como eu, a ansiedade toda começa em meados de dezembro quando Simone nos pergunta: “Então é Natal…e o que você fez?” Quer dizer… eu não sei Simone, eu não sei o que eu fiz. Quando você me pergunta desse jeito parece realmente que eu não fiz nada!

Eu acredito que a letra dessa música é uma síntese da maneira como nós experienciamos a conclusão de um ano. Um verdadeiro checklist de conquistas materiais e objetivas que usamos para nos dizer se estamos no caminho certo ou não. Fazer dieta, mudar de emprego, viajar, tirar um curso, estar em um relacionamento, sair de um relacionamento… e por aí vai. O que não nos damos conta é que nem toda conquista é palpável. Amadurecimento emocional, novas amizades, medos superados ou até a manutenção daquilo que já possuímos – tudo isso é conquista.

Esquecemos também que nada acontece da noite para o dia. A urgência em querer tudo pronto acaba por desvalorizar os nossos processos. Se você não atingiu suas metas em 2018, isso não significa que você não tenha feito nada para que elas acontecessem. Talvez você tenha se aproximado delas enquanto trabalhava para vencer seus medos e inseguranças, ou se qualificando, ou ganhando experiências que você ainda nem sabe, mas podem ser fundamentais para alcançar aquilo que deseja no futuro. Além disso, sinto que precisamos ser mais gentis com nós mesmas quando estabelecemos todas essas metas. Já sofremos com tantas cobranças externas, que me parece injusto sermos mais uma voz na nossa cabeça nos julgando e nos comparando umas com as outras.

Cada um caminha no seu tempo.

Para mim, o ano que passou poderia ser visto como improdutivo, tendo em conta que eu estive durante meses com uma dor física quase insuportável. Uma dor que me impedia de andar. Em pleno verão, me vi forçada a passar quase todos os dias em casa com compressas quentes e pomadas. Hoje eu escrevo sabendo o que eu tenho e sendo bem tratada, mas, quando eu travei ao me levantar de uma cadeira e nunca mais fiquei reta, eu era só medo e preocupação. No início eu fingi que a dor não estava lá, então ela fez questão de se fazer notar. Depois, durante muito tempo eu só soube me queixar para que ela passasse logo, impaciente para voltar à rotina. Apenas quando eu abracei essa dor e a escutei com atenção foi que ela me deixou, em uma espécie de “meu trabalho aqui está feito.” Entendi então que esse era o meu processo, o tempo que eu precisava para restabelecer as minhas metas futuras.

Eu sempre acreditei que o nosso corpo externaliza as nossas dores mais profundas e naquele momento ele comunicou com clareza: algo me impedia de caminhar. Era verdade. Havia uma desconexão enorme entre mim e os meus desejos, fruto de um medo que me impedia de avançar. Então, afinal, a pausa que eu fui forçada a fazer me permitiu reavaliar uma série de coisas na minha, desde a falta de atenção que eu vinha tendo com a minha saúde até a maneira como eu negligenciava necessidades intelectuais e emocionais. Bendita dor.

Se você sente que a sua vida anda suspensa por algum motivo, preste atenção. Aproveite essa oportunidade. Porque as pausas são momentos de reflexão e de tempos em tempos precisamos afinar as nossas ações e intenções: será que estou feliz assim? Será que algo que me falta? O que posso fazer para mudar isso? Se nós estamos em constante mudança, é normal que nos percamos de vez em quando pelo caminho.

Por isso hoje, se me perguntam o que eu fiz em 2018, antes de contar sobre a minha viagem ao Brasil, ou sobre as férias que a minha mãe passou em minha casa ou sobre o trabalho que eu deixei, eu digo: descobri uma hérnia lombar! 🙂


Todas as imagens presentes nesse texto são da artista @kellymaker. Site oficial aqui.

Flavia Doria é jornalista e fundadora do aletraeffe.com

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