OLHARES FEMININOS

As Mulheres e o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro

No próximo dia 10, se realizará a entrega do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, organizado pela Academia Brasileira de Cinema e Artes Visuais. A edição de 2020 homenageará coletivamente os profissionais da cultura e se realizará de forma virtual. Logo no segundo parágrafo do texto de apresentação dos finalistas das 32 categorias da premiação, encontro a motivação que me leva a escrever este artigo: “‘Bacurau’, dirigido por Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, é o longa com maior número de indicações (15 categorias), seguido por ‘A Vida Invisível’, de Karim Aïnouz (14) e ‘Simonal’, de Leonardo Domingues (10).”

Dos três longas mencionados, dois têm mulheres como protagonistas. E, como se nota, nenhum deles é dirigido por uma mulher.

Tomo neste texto a categoria longa-metragem e a função da direção como um recorte, já que são tradicionalmente os focos de atenção e prestígio dentro da indústria audiovisual como um todo. E este recorte evidencia algo que tenho observado nos últimos anos junto com a nova onda feminista que abraçou o Brasil e outros países do mundo: filmes que trazem mulheres como protagonistas e, muitas vezes, que buscam quebrar os estereótipos machistas, porém que, apesar disso, continuam sendo contadas pelos mesmos homens de sempre. E mais do que isso: por performarem narrativas que estão de acordo com a luta feminista por mais representatividade nas telas, ganham grande adesão e identificação da militância.

Este é o ponto do artigo em que preciso deixar claro que esta não é uma crítica aos diretores, ou ao prêmio, muito menos à militância feminista que se identifica com essas protagonistas e suas trajetórias, é apenas um apontamento de que o avanço da representatividade na frente das câmeras não se verifica por trás delas.

Na mesma lista de finalistas do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro há outro dado que talvez nos ajude a entender o primeiro: dos 10 curtas-metragens (de ficção e documentário) 9 são dirigidos por mulheres. Nesta breve lista feminina encontramos cineastas renomadas como Susanna Lira e Daniela Thomas, jovens como Yasmin Thayná e diretoras negras reconhecidas internacionalmente como Sabrina Fidalgo. Há mais diversidade nestes 9 nomes que nos mais de 50 listados como finalistas desta premiação.

Os finalistas da categoria de curta-metragem nos dizem algumas coisas sobre a situação da mulher no audiovisual brasileiro. A primeira é que como o curta é um formato praticamente não comercial, ele costuma demandar um orçamento menor e deixa mais espaço para a autoria. Isto significa que estas mulheres com mais liberdade para criar, conseguem fazer um trabalho que se destaca por sua qualidade técnica e criativa. Ao mesmo tempo, quando comparamos com a ausência delas na categoria de longa-metragem podemos concluir que quando o projeto é mais robusto em termos de orçamento e equipe, elas não têm as mesmas oportunidades que os homens. Afinal, se as diretoras de curtas-metragens são capazes de se destacar de tal forma em comparação aos diretores, por que quando falamos de longas a situação é radicalmente oposta?

O ano é 2020, o prêmio é realizado de forma totalmente virtual, as protagonistas das histórias são mulheres que quebram padrões, mas apesar desse cenário ter toda a cara de filme futurista, ainda há um pilar estrutural fincado no passado. Ainda há um passo importante a ser dado e nenhuma vitória será cantada até que possamos colher os mesmos méritos por contar as nossas histórias.

 

por Nathália Oliveira

projetomulherespoderosas.com

Flavia Doria é jornalista e fundadora do aletraeffe.com

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