Autoamor

Autocuidado Não Se Compra

Toda vez que a mulher se empodera de algo que antes existiu para a oprimir, o capitalismo encontra seu jeito de converter esse empoderamento pra si. E não estou falando só de T Shirts de marca com frase feminista estampada. O capitalismo também sabe ser sutil. Um ótimo exemplo é o nosso querido autocuidado. Mulheres em diferentes recortes sociais passaram a identificar ao longo dos anos como suas rotinas não permitiam tempo para si, uma vez que elas trabalham quase o dobro de horas que os homens, ao redor do mundo, cumprindo sua jornada dupla trabalho-casa. Segundo pesquisa do IBGE de 2018, elas trabalham em média 3,1 horas semanais a mais que os homens. Sendo ainda as principais responsáveis pelo trabalho doméstico e o cuidado de idosos e crianças, a mulher não tem tempo pra si. Por necessidade, a mulher descobriu a importância de se cuidar com o mesmo amor que ela já cuidava dos outros.

 

Recentemente, o autocuidado virou pauta no mundo todo e as nossas redes sociais vivem inundadas de imagens de amigas ou celebridades fazendo skin care, com uma máscara facial, enquanto toma um copo de vinho em um roupão que parece de hotel, enquanto as crianças assistem televisão na sala. Assim, sem que percebêssemos, a palavra virou sinônimo de rotina de beleza, fotos de produtinhos caros e a ideia de parecer bem chique com seu spa improvisado em casa. Em uma busca rápida na internet já não conseguimos distinguir o que é sobre cuidados e o que é sobre parecer viver em uma propaganda de cosméticos. Aos poucos, aquilo que devia ser um alívio das nossas costas cansadas de carregar a sobrecarga de existir em uma sociedade patriarcal, passou a ser mais um reflexo das maneiras como a mentalidade capitalista está arraigada na gente. Achamos que tudo pode ser vendido e tudo pode ser comprado.

 

Acontece que o autocuidado não é um produto e vê-lo sob esse viés glamuroso é muito privilegiado e exclui mulheres de classes sociais mais baixas de um hábito que na verdade pode ser acessível a todes. Porque autocuidado é tudo aquilo que faz você se sentir cuidada e amada por você mesma. Claro, pode ser uma hidratação no cabelo, mas também pode ser comer uma comidinha gostosa, ouvir música alta, pegar naquele hobbie que você tinha deixado pra trás, regar as suas plantas, caminhar no quarteirão, ver seu programa de TV favorito. Não precisa e nem deve custar caro, e para muitas pessoas, uma soneca na rede ou 5 minutinhos de meditação já é um luxo.

 

Para não cairmos nas ciladas de transformar tudo em hábito de consumo é importante entender que os nossos sentimentos reais não cabem na foto do instagram. Nada garante que a nossa amiga fazendo beicinho com a cara bezuntada de creme esteja tendo um ótimo momento pessoal ou que se cuide mais ou menos que qualquer um. Talvez sim, talvez não. Sobretudo, temos que nos lembrar que somos complexas e subjetivas e felicidade não é igual pra todo mundo. Repetir a rotina de outra mulher esperando o mesmo resultado não é só cruel, mas irreal. Se nós não somos iguais, as nossas vidas não são iguais, logo a maneira como nos cuidamos também não vai ser.

 

 A padronização por trás dessa imagem da mãe de família tirando um momento com duas rodelas de pepino nos olhos serve a interesses de mercados que perceberam no interesse das mulheres por autocuidado um novo filão. E dessa forma o bem estar de umas acontece às custas do mal estar daquelas que vivem a frustração de não ter tempo nem dinheiro para repetir os mesmos passos do que lhes foi vendido como uma ferramenta de amor próprio. Nos apropriar daquilo que é nosso direito é uma batalha constante. 

 

Por mais que toda estrutura social nos diga o contrário, nem tudo tem um preço, nem tudo é inacessível, nem tudo é passível do jogo de ostentação de estilo de vida. Se amar é graça, se cuidar também. 

 

 

 

Flavia Doria é jornalista e fundadora do aletraeffe.com

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