LIKE A BOSS

Bettina e o Péssimo Exemplo

“Oi, meu nome é Bettina, tenho 22 anos e 1 milhão e 42 mil reais de patrimônio acumulado”. Com essa introdução poderosa, eu finalmente fiquei conhecendo o rosto do último meme brasileiro (os memes do Bozo não contam, tá? São muitos). Em poucas palavras objetivas, o anúncio de YouTube que se tornou viral segue com a funcionária da Empiricus, contando seu caso real de sucesso no qual em apenas três anos transformou R$ 150 mil em R$ 1,042 milhão. Não me surpreende que o vídeo tivesse a veracidade dos seus valores questionada e logo virasse motivo de piada na internet.

 

Nos sentimos todos um pouco miseráveis quando o assistimos. Afinal, que magia matemática permite um crescimento desses? E mais; quem no Brasil possui um patrimônio próprio nessa idade, especialmente nesses valores? Parece que desconfiamos cada vez mais do conto do lobo privilegiado em pele de cordeiro trabalhador e esforçado. As entrevistas com Bettina confirmam: além do investimento inicial, ela obteve 35 mil reais de uma poupança feita pelo pai em seu nome. Como se não bastasse, ela não sabe dizer qual foi o valor total que investiu para chegar ao resultado final.

 

Sigo sem entender qual o grande exemplo a Empiricus pretende que a jovem seja para quem a assiste. Uma grande mulher de negócios que investe um dinheiro que não é seu em uma quantia que ela não sabe quanto desconhecendo assim o seu próprio lucro?Além de receber uma notificação do Procon devido a falsa propaganda nos números citados, a empresa perpetua dois estereótipos problemáticos quando pensamos em finanças: o primeiro de que aplicação de capital é coisa de gente rica e o segundo de que é coisa de homem. Linda e loira, Bettina parece uma piada pronta para o senso comum e afasta do assunto “investimento” quem mais precisa estar dentro dele.

 

As mulheres hoje são quem menos investe no mercado financeiro no Brasil e no mundo. O problema da diferença salarial entre os gêneros não é o único motivo, a imagem de um homem de terno e gravata em um ambiente empresarial ainda afasta quem não se enquadra nesse perfil. Em comparação entre homens e mulheres com salários semelhantes, elas investem 29% a menos que eles. No caso de pessoas com salários acima dos dez mil reais, a discrepância é ainda maior: 50% a menos. Sabemos muito bem que a desigualdade de gênero ainda faz com que no mundo todo as mulheres tenham menos acesso à dinheiro do que os homens de maneira geral, mas aquelas que o possuem ainda se retraem na hora de dar o próximo passo da economia doméstica.

 

Durante muito tempo dinheiro foi assunto patriarcal, mesmo depois que começamos a trabalhar. Basta pensar que historicamente sempre trabalhamos, mas só depois da metade do século XX passamos a ter direitos como conta bancária no próprio nome ou CPF*. A independência financeira não vem atrelada à mentalidade que permite gerir as nossas próprias economias como as de uma empresa: com orientação para o lucro ao invés da subsistência. Esse é um trabalho que exige mudança de paradigmas e acesso à informação sobre o assunto. Para isso são necessários exemplos que nos mostrem que podemos ser investidoras, mesmo dentro da realidade individual de cada uma, partindo da nossa situação econômica seja ela qual for.

 

Bettina, nesse caso, é a última imagem que precisamos. Ela não faz dupla jornada, não é a fonte de renda principal da família, não sabe o que é cheque especial nem passou dificuldades. Jovem branca, de classe média alta, herdeira de uma poupança muito antes de pensar em levantar o primeiro dedo para trabalhar. Difícil se identificar nessa imagem. E quando não conseguimos nos ver espelhadas em certos lugares e posições acreditamos que eles não são para a gente. Assim aos poucos, aplicar em uma poupança, comprar uma ação, estudar o mercado financeiro e vislumbrar novas maneiras de fazer seu dinheiro se movimentar e render vira coisa de Bettinas e não de Marias.

 

Com todo o desenrolar das sátiras, das acusações de fraude, racismo estrutural e tudo o mais que cabe nas discussões sobre o meme eu só consigo pensar como eu gostaria de ver propagandas com as nossas empreendedoras, nossas girl bosses, ou simplesmente com mulheres que são a CEO da própria vida. Elas existem e podem não fazer milagres da multiplicação matemática, mas podem apresentar resultados REAIS. É urgente falar mais sobre elas porque precisamos desses exemplos para entender que também podemos jogar esse jogo e que mulher nas finanças não é piada.

_____________________________________________________________

Todas as imagens presentes nesse texto são da artista @ameliaflower

Nota:

¹ CPF é o equivalente ao NIF no Brasil.

Fontes e hiperlinks:

Mulheres investem 29% menos que homens, mostra GuiaBolso

https://g1.globo.com/economia/seu-dinheiro/especial-publicitario/orama/noticia/que-papo-e-esse-que-mulheres-nao-investem.ghtml

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2019/03/bettina-nao-sabe-quanto-investiu-para-chegar-a-r-1-milhao.shtml

Bettina: “Eu nunca falei que transformei 1520 reais em 1 milhão”

https://oglobo.globo.com/economia/procon-notifica-empiricus-por-propaganda-com-bettina-conar-estuda-abrir-processo-23534388

Flavia Doria é jornalista e fundadora do aletraeffe.com

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

error: Conteúdo protegido :)