Sociedade

Gabriela Pugliesi – Do Que Sabem os Influencers?

Nos últimos dias, acompanhamos o “cancelamento” da musa fitness Gabriela Pugliesi, que perdeu contratos com mais de . Não à toa. A influencer, diagnosticada com COVID-19, ignorou as recomendações de saúde mundiais sobre isolamento social dando uma festa em casa para amigos e compartilhando registros do evento para seus 4,4 milhões de seguidores. Para todos nós, o caso ressoa como sinais dos tempos e traz um aviso sobre os riscos em seguir quem seguimos na internet.

Ironicamente, a blogueira criou sua imagem vendendo um ideal de vida saudável, recheado de dicas de exercícios e alimentação sob o pretexto de bem-estar. Acontece que Gabriela não é medica, não é nutricionista nem possui nenhuma qualificação dentro da área. Nem tão pouco é professora de educação física ou tem qualquer tipo de instrução que a torne capaz de falar sobre o assunto. Inclusive, no passado, ela já foi  pelo Conselho Regional de Educação Física do RJ e do ES, bem como pelo  do RS. A defesa de Gabriela ganhou pelo fato de ela ser “só uma influenciadora”. Mas até quando vamos ser influenciados por pessoas sem propriedade no assunto que vendem?

Sim, porque pessoas como Pugliesi não são curiosos inocentes compartilhando suas descobertas com amigos em uma página da internet, mas profissionais das redes sociais que lucram cerca de  por post no Instagram. A sua imagem e estilo de vida são um produto que ela vende para quem a acompanha. Seu  foi construído, portanto, em cima de uma área de conhecimento (a saúde) sobre a qual ela não domina. Fato que ela nunca precisou esconder porque ninguém estava preocupado com o currículo e experiência dos criadores de conteúdo online — pelo menos até agora.

Foi preciso uma pandemia global com medidas sanitárias exigentes para revelar que, afinal, Gabriela Pugliesi não estava preocupada em incentivar os seus seguidores a cuidarem mais da própria saúde. Mas os sinais sempre estiveram lá. Os perigos das intituladas musas fitness vão muito além da desinformação gerada pela falta de autoridade dos seus discursos. Isto porque esse tipo de perfil se apropria de uma dinâmica muito cruel entre conceitos de “saúde” e “beleza” e seu impacto na sua audiência majoritariamente feminina. Estamos falando aqui de uma cultura que relaciona um corpo saudável com um corpo magro e forte, ao invés de bons resultados em exames médicos.

Já não é de hoje que psicólogos apontam as relações entre depressão e ansiedade com o . Devido ao alto grau de comparação que a rede proporciona, seguir pessoas que aparentam ter uma imagem e uma vida perfeitas pode causar muita frustração. No caso das mulheres, essa comparação é acentuada pelos padrões de beleza inalcançáveis, que são usados para transformar insatisfação em desejo de consumo há muito tempo. A diferença é que no tempo das nossas mães, eram as revistas e a televisão que faziam o papel de ilustrar a “mulher perfeita” com o objetivo de vender, nos intervalos e páginas publicitárias, os milagrosos produtos que fariam sua audiência ser “perfeita” também.

Mas por que marcas como a Hope, uma das maiores do segmento lingerie feminina, investia em Gabriela? Acontece que o marketing de influência, assim como o marketing digital em geral, ainda trabalha com estatísticas que respondem à quantidade e não a qualidade. Eu facilmente posso medir a quantidade de seguidores e a quantidade de engajamento que um perfil tem, mas não existe métrica para qualidade do discurso ou valores de uma pessoa. É possível minimante saber o que um blogueiro prega, mas só seus seguidores estão lá todo dia para saber se ele pratica. Sendo assim, as marcas se apoiam no muito mais no comportamento da audiência do que do influenciador.

Aos poucos, esse jogo está virando. A preocupação do consumidor com os valores defendidos por uma marca é muito recente, mas ela só cresce e já é apontada como uma  que veio para ficar. Além disso, a internet também começa a mudar. Com uma maior conscientização sobre saúde mental, aos poucos questionamos o quanto as páginas que seguimos agregam na nossa vida e é cada vez mais comum discutir questões como  .

A cara dos próprios influenciadores digitais também começa a mudar. No Brasil e no mundo, perfis como o da atriz americana Jameela Jamil e da escritora brasileira Alexandra Gurgel crescem comunidades focadas em body positivity e no combate do discurso viciado em padrões de beleza. Também o aparecimento de profissionais especializados em diversos segmentos, dispostos a compartilhar informação com o público, torna aos poucos difícil a vida de quem pouco ou nada sabe do que fala.


Fontes:

Exame

UOL

G1

Jornal Extra

Portal R7

Veja SP

Flavia Doria é jornalista e fundadora do aletraeffe.com

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