Autoamor

Gratidão Para Além da Hashtag

Se você fala português e tem internet já se deparou com a #gratidão. Não é de hoje que a palavra serve de legenda para registros de viagens, grandes realizações pessoais e profissionais ou simplesmente para conferir um tom de espiritualidade naquela pose de ioga que fizemos para a foto depois de uma longa trilha. Enquanto nos Estados Unidos e no Canadá hoje se comemora o Dia de Ação de Graças, eu levanto a pergunta: porque só lembramos de nos sentir gratos sobre coisas grandiosas ou momentos raros?

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Depois de uma onda de artigos sobre os benefícios de se sentir grato que vão desde publicações científicas, passando pelo filme/livro “O Segredo”, até o youtuber mais próximo, o conceito caiu nas graças de pessoas como eu e você. Como talvez já imaginassem os colonos norte-americanos, o simples ato de agradecer nos faz sentir muito bem. Porém, como tudo que passa pelo nosso comportamento social, sendo online ou não, a ideia de gratidão passou a ser repetida até a exaustão e ao seu esvaziamento quase completo. Corro o risco de dizer que possamos até ter invertido o seu significado: pegamos algo relacionado à apreciação daquilo que se tem, independentemente do fato de ser muito ou pouco, caro ou barato, e subvertemos para uma ostentação de algo que consideramos valioso para a sociedade.

É claro que ficamos todos contentes com uma promoção no escritório ou um destino de praia no verão, mas nenhuma dessas coisas são corriqueiras. Ou ocorrem com todo mundo. Quando relacionamos a emoção que reconhece como dádiva acontecimentos na nossa vida com eventos esporádicos de privilégio afastamos, de nós mesmos e de quem nos acompanha, qualquer noção de que vivemos uma vida digna de gratidão. Além disso, é difícil nos conectarmos com uma mensagem espiritualizada no Instagram quando tudo que vemos é uma tentativa de mostrar aos outros algumas conquistas pessoais.

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Se nos sentimos felizes quando agradecemos é porque lembramos do valor de algo ou alguém em nossas vidas e o simples reconhecimento de que possuímos coisas valiosas nos confirma que somos merecedores de coisas boas. É verdade, eu testei.

Há vários anos aprendi a importância de soltar um “muito obrigada” não só em voz alta à alguém de maneira cordial, mas constantemente em silêncio à mim mesma ou ao universo. Eu encontrei conforto nesse sentimento e com um pouco de prática, logo descobri que essa era uma maneira de sair de estados mentais de carência. Sempre que sentimos que precisamos de muitas coisas – de dinheiro, do afeto dos outros, de experiências novas etc – pensamos em coisas que não temos. Se eu preciso de carinho é porque sinto que ninguém me dá carinho. Enquanto a falta nos coloca nessa posição de pobres coitados vítimas das circunstâncias, a abundância nos faz sentir preenchidos, confiantes. Para isto exercitamos a gratidão: para nos sentirmos abundantes.

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O lugar onde moramos, as pessoas ao nosso redor, coisas que conquistamos, um trabalho, um hobbie. As plantas, aquele jantar na semana passada, uma cerveja gelada depois de limpar a casa. Pequenos momentos de prazer que nem sempre vão parecer importantes para as redes sociais, mas que definitivamente tornam a nossa existência preciosa. Acima de tudo, sinto que precisamos agradecer mais por quem somos também. Parece que nas minhas listinhas hashtag gratidão eu sempre esqueço de mencionar como eu me sinto eternamente grata por continuar em frente todo dia ou pelos meus talentos na cozinha.

Eu sei que se vivêssemos em eterno estado de deslumbramento com cada folha que cai da árvore estaríamos todos tão funcionais quanto um grupo de amigos no after de um festival psicodélico, mas precisamos prestar mais atenção às coisas boas. São elas que mudam a nossa perspectiva sobre a realidade e que nos levam da escassez à fartura. É um trabalho de buscar aquilo que já lá está. Ou como bem disse um cartão de Ação de Graças que eu vi esta semana, acompanhada da imagem de um peru: “Se um camarada não está grato pelo que tem, ele provavelmente não vai ficar grato por aquilo que receber.”

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Todas as imagens presentes nesse texto são da artista @abbey_lossing Site oficial aqui

Flavia Doria é jornalista e fundadora do aletraeffe.com

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