Sociedade

Ivone Lara: Rainha da Saúde Mental

Publicado originalmente em Revista Subjetiva em 17-07-2020

Conhecida como a Rainha do Samba, Dona Ivone Lara (1921–2018) é um grande ícone da música brasileira. Cantora e compositora, ela é responsável por diversos sambas que fazem parte da nossa história como “Acreditar”“Sonho Meu” e “Alguém Me Avisou”. Ela fez história se destacando em um ambiente até então quase exclusivamente masculino como eram as rodas de samba. Inclusive, em 1965, tornou-se a primeira mulher a assinar um samba-enredo oficial. O que poucos sabem é que ela era enfermeira e desempenhou um papel fundamental na luta pelo fim dos manicômios e a favor da saúde pública no Brasil.

Filha de músicos, Ivone Lara ficou órfã muito cedo e cresceu em um internato na Tijuca. Desde pequena, ela tocava cavaquinho e estudou canto com Lucília Villa-Lobos. Contudo, foi apenas em 1977 que sua carreira musical começou oficialmente, depois de ter se aposentado da vida profissional nos hospitais. É curioso pensar que então, a maior parte de sua vida, ela se dedicou a atuar nas suas áreas de formação: Enfermagem e Assistência Social.

Com apenas 17 anos, ela entrou para a Faculdade de Enfermagem da atual UNIRIO, onde se graduou enfermeira. Aos 21, ela prestou concurso público para o Ministério da Saúde e aos 25, foi contratada pelo Instituto de Psiquiatria do Engenho de Dentro. Lá, ela se especializou com Nise da Silveira em TERAPIA OCUPACIONAL, área através da qual ela desempenhou um papel fundamental na revolução do tratamento psiquiátrico no Brasil. Durante mais de três décadas ela atuou na Colônia Juliano Moreira, com pacientes de doenças mentais.

Ivone Lara também foi uma das primeiras mulheres formadas em Assistência Social e uma das primeiras mulheres negras com Diploma no Brasil. Seu trabalho nessa área foi tão importante que em 2016, a professora da Faculdade de Serviço Social (UERJ), Graziela Scheffer, publicou o artigo acadêmico “Serviço Social e Dona Ivone Lara: o lado negro e laico da nossa história profissional”.

Ivone era conhecida por percorrer as enfermarias e pavilhões do Instituto Psiquiátrico Pedro II em busca das histórias, referências e laços familiares dos pacientes. Ela fazia plantões de 24/48 horas que, segundo ela própria, eram desgastantes, mas, ao mesmo tempo, muito gratificantes porque ajudavam a diminuir o sofrimento dos que procuram as unidades públicas de saúde.

Em uma época em que pacientes de doenças mentais eram institucionalizados e abandonados pela família, Ivone se deslocava entre os municípios do Rio e estados vizinhos, localizando esses parentes para apresentar uma visão diferente da maioria dos diagnósticos médicos — que desacreditavam a condição mental dessas pessoas. Tudo isso fazia parte de uma rotina terapêutica e de uma visão completamente nova de humanização no tratamento da saúde mental.

Além disso, Ivone trouxe a terapia musical para seus pacientes no Engenho de Dentro, usando seus contatos para patrocinar instrumentos e a criação de uma Oficina de Música, que passou a apoiar festas e eventos de socialização entre os pacientes, seus familiares e os funcionários do hospital. Essa oficina mais tarde deu origem ao bloco de carnaval Loucura Suburbana, que existe até hoje. Mas, com tudo isso, por que não conhecemos essa história tão importante na vida de uma figura tão famosa como ela?

Mulher, negra, o papel de Ivone Lara na Reforma Psiquiátrica e na Luta Antimanicomial é um exemplo do apagamento da figura da mulher negra na nossa história. Enquanto sua carreira musical foi impossível de ignorar, sua vida acadêmica e seu papel social foram silenciados na cultura popular. Mesmo quando falamos de Nise da Silveira, desconhecemos o fato de que essas duas grandes mulheres trabalharam juntas. No filme “Nise: o Coração da Loucura”(2016), o papel de Ivone — interpretado por Roberta Rodrigues — é tão pequeno que mal percebos de quem se trata.

As narrativas que escolhemos perpetuar dizem muito sobre nós enquanto sociedade. Sem dúvidas, Ivone Lara levou seu espírito pioneiro para o ambiente musical e essa é uma carreira cheia de feitos para contar. Mas talvez tenha sido mais fácil aceitar seu sucesso no mundo artístico do que no mundo científico — até hoje tão masculino e tão branco. Seja como for, precisamos resgatar a memória de mulheres que foram apagadas ou minimizadas e fazer justiça a sua devida importância. Salve Dona Ivone Lara, compositora, cantora, enfermeira psiquiatra, assistênte social…pioneira!

Flavia Doria é jornalista e fundadora do aletraeffe.com

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