Sexualidade

Safe For (Home) Work: Masturbação Feminina

Tirem as crianças da sala! Hoje eu quero falar sobre masturbação feminina. Maio é o masturbation month¹ e quer momento melhor pra falar sobre isso do que esses tempos de confinamento? Com a impossibilidade dos encontros sexuais nos últimos meses e o aumento da solidão, o assunto ganhou destaque sendo pauta até em discursos políticos. Jornais como o New York Times já recomendam, e tudo indica que o autoprazer vive sua era de ouro. Mas eu me pergunto se as mulheres conseguem aproveitar as recomendações.

Parece que não. De acordo com uma pesquisa de 2017 realizada pela USP, 40% das mulheres nas grandes cidades brasileiras não se masturbam. Ao redor do mundo, as estatísticas variam de acordo com o país e a idade, mas de maneira geral elas ainda se tocam menos do que eles. Fato é que o prazer sexual feminino tem sido um tabu por muito tempo. E por isso, ainda hoje, muitas mulheres se privam das vantagens de se proporcionarem orgasmos sozinhas. O que é um problema ainda maior se considerarmos o pleasure gap, tema do livro de mesmo nome escrito por Katherine Rowland sobre o estudo da insatisfação sexual feminina durante o sexo em relacionamentos heterossexuais.

Pessoalmente, eu adoro o assunto e sempre encontrei resistência ao debate nas rodas de amizades por mais “liberais” que fossem. Não dá para esquecermos que a repressão da sexualidade das mulheres é milenar e está nas bases estruturais da opressão desse gênero na sociedade. Acredito que todo esse controle sobre o corpo da mulher (seja pelas instituições religiosas, econômicas, políticas, culturais etc) só é possível a partir do momento em que elas são afastadas do seu lugar de domínio sobre o próprio corpo e sexualidade, através de um sistema que reforça a vergonha e a insegurança.

Quando garota, eu aprendi rápido que deveria guardar para mim as minhas descobertas de autoprazer, e ainda tive que esperar uns bons anos até que as meninas da minha turma começassem a discutir timidamente sobre masturbação. Eu me sentia bastante isolada porque, pelo menos na minha época, nem as famílias nem as escolas se sentiam muito prontas para furar a bolha do tabu. Curiosamente, ao mesmo tempo, todo mundo falava sobre sexo. A família, a escola e as mesmas amigas que me julgavam enquanto davam seus primeiros beijos, depois namoravam e iniciavam uma vida sexual. Enquanto os rapazes embarcavam nessa jornada depois de muito “5 contra 1”, as suas parceiras conheciam tanto sobre prazer feminino quanto eles.

Como podemos ensinar para alguém uma coisa que não sabemos? 

Acontece que até os dias de hoje existe uma defasagem muito grande em relação às pesquisas sobre anatomia e sexualidade feminina. Foi apenas em 1998 que a urologista Helen O’Connell traçou a anatomia completa do clitóris — que, caso você ainda não saiba, é beeeem maior que aquela pontinha que a gente vê! O que contribui para que mesmo quem já se aventure lá por baixo ainda não tenha muita informação sobre como melhorar a experiência. Sem pesquisas também não conseguimos formalizar a discussão ou falar com propriedade sobre o prazer feminino. Foi pensando nisso que o portal OMGYES.com nasceu, como uma plataforma para capitalizar investimento em pesquisas cientificas e depois divulgá-las com seus assinantes.

Se serve de algum incentivo, eu não me importo em dizer que os meus anos de autoconhecimento foram bastante recompensados. Não só por tornar fácil “chegar lá” seja sozinha ou com alguém, mas pela confiança e segurança que acompanham esse processo. Nada é mais empoderador para uma mulher do que se conhecer. E para quem ainda acredita que “não é muito fã da coisa” ou “prefere dançar a dois” eu lembro que tabus são inconscientes e simplesmente não existe desvantagem na prática.

Atingir o tão cobiçado clímax libera dopamina no nosso cérebro, substância responsável pela motivação, controle do movimento, memória, e claro, sensação do prazer. Mas também não se engane, isso não é uma corrida com ponto de chegada. Com ou sem orgasmos, a masturbação feminina alivia o stress, as cólicas menstruais e previne a incontinência urinária através do fortalecimento do assoalho pélvico. Sobretudo, ela é fundamental no descobrimento e manifestação da própria sexualidade. Isso tudo no alcance dos dedos. E se isso soa para você como uma propaganda de masturbação…é porque é mesmo.

 

Vajeyjey: Guia Prático da Usuária

 

Pensando em todas as pessoas portadoras de uma vagina e uma vulva, eu acredito que este artigo não estaria completo sem dicas práticas. Como eu não sou nem ginecologista, nem sexóloga, nem terapeuta sexual, eu falo do meu lugar já quase sênior de “experiência da usuária”. E claro, de uma jornalista que agora tem o histórico do Google repleto de buscas escandalosas…em nome da informação.

1. Passeie Pela Sua Anatomia

Existem algumas formas de categorizar o orgasmo feminino e muitas letras do alfabeto envolvidas, mas o que você precisa saber é que tudo está interligado. Apesar de falarmos muito sobre pontos específicos, dificilmente um orgasmo é provocado por uma parte da vagina ou da vulva isoladamente. Existem sim zonas especiais como os arredores da sua uretra (Ponto U), o iniciozinho do seu canal vaginal (Ponto G) e lá no fundo do seu canal vaginal, perto do colo do útero (Ponto A). Esses lugares são reais e trazem sensações diferentes cada um deles, mas só o clitóris é mesmo um órgão que se estende por toda a vulva e arredores da entrada vaginal. Agora pegue o mapa e explore!

2. Consistência VS Alternância

Consistência é citado por 6,5 a cada 10 mulheres entrevistadas pelo OMGYes como um dos fatores mais importantes da masturbação. Ao mesmo tempo, o nosso cérebro deixa de interpretar como prazeroso um movimento repetido por muito tempo. Por isso, se você começar a desanimar com um ponto que começou prazeroso, não é sua culpa é apenas ciência! Procure alternar entre as diversas zonas. Por exemplo combinar uma estimulação interna com uma externa pode ser um grande caminho para o sucesso!

Ah e se você não quiser experimentar penetração, você pode descer do clítoris até o Ponto U e voltar.

3. Cadência e Evolução

Parecem categorias de avaliação de escola de samba, mas são os fundamentos básicos para uma boa masturbação. Encontre seu ritmo, foca no seu corpo …pratica ali um certo mindfulness e depois evolui. Uma dica boa é ser criativa na hora de se criar esse ritmo, dar uma paradinha de surpresa — olha o breque! rs — e depois tornar a acelerar.

4. De Corpo Inteiro

Não é só lá embaixo! Você é um corpo inteiro cheia de zonas erógenas e você não precisa de mais ninguém para te dar carinho. Percorra outros lugares do seu corpo antes, durante e depois de se masturbar. Isso te ajuda a entrar no clima e também a descentralizar a energia sexual, tornando o prazer muito mais acessível inclusive depois em experiências com parceirxs.

5. Outros Sentidos

Para algumas mulheres pode ser bem mais fácil — e imersiva — se a experiência for multissensorial. Experimenta uma luz diferente, uma musiquinha, incenso pra quem for de incenso, óleo essencial para quem for de óleo essencial, filme pornô para quem for de filme pornô (experimenta filmes fora da grande indústria, dirigido e produzido por mulheres!).

6. Gadgets

Brinquedos, assessórios e lubrificantes. Existem gamas infinitas no mercado, tecnologias incríveis em brinquedos para as mais diversas anatomias e gostos. Mas, sobretudo, eu quero falar sobre lubrificantes. Apesar da lubrificação ser uma consequência natural da sua estimulação, você não precisa esperar por ela. Um bom lubrificante torna tudo mais divertido e prazeroso. Seja sozinha ou com alguém, com ou sem brinquedo, eles podem potencializar esse momento pra você.

¹ O masturbation mouth foi criado em 1995 em homenagem à médica e administradora de saúde pública estadunidense Joycelyn Elders por seus esforços em naturalizar a conversa sobre masturbação. No ano anterior, Elders foi obrigada a se demitir do Governo por dizer que entendia a masturbação como parte da sexualidade humana e que deveria ser ensinada.

Flavia Doria é jornalista e fundadora do aletraeffe.com

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