Autoamor

Menstruação 2.0

Em 2019 eu não menstruo da mesma maneira que antes. Hoje sei através de um app exatamente quando e como vou passar por cada fase do meu ciclo, que tipo de dores estou mais propensa a ter e uma série de outras coisas que não são físicas, como por exemplo, qual o meu momento mais produtivo no mês. Também não uso mais nenhum tipo de absorvente descartável, o que além de não transformar a minha menstruação em lixo me deixa muito mais confortável durante esses dias. E tudo isso é possível graças a tecnologias desenvolvidas por outras mulheres.

São momentos como este em que eu sinto que o futuro é aqui e agora. Não o futuro das distrações divertidas e inúteis como roupas prateadas ou skates voadores, mas um com ferramentas que realmente começam a mudar positivamente a maneira como vivemos. É claro que existe sempre um hype muito grande em aderir novidades que te façam parecer mais moderna só por ser diferente, mas acredito que as inovações que surgem a partir das nossas demandas vão muito além disso. Quando mulheres finalmente empreendem em negócios e tecnologias, elas trazem ao mercado produtos que atendem necessidades reais das outras, sem precisar criar um problema para vender uma solução.

Ao contrário da infinita lista de itens para intimidade feminina, que a indústria vende a partir da ideia que nossos corpos são “sujos” ou “imperfeitos”, usar calcinhas menstruais me fizeram sentir que o meu fluxo, afinal, não era um transtorno. Sim, porque quando você tem que se preocupar com vazamentos e trocas constantes de absorventes internos ou externos com todo o cheiro, sujeira e lixo que eles geram, fica difícil não pensar no seu período como um problemão! Para você e para o planeta. Afinal, nada na nossa sociedade é voltado para seres que menstruam. Nossas jornadas de trabalho são irrealistas sob a perspectiva de quem passa o dia inteiro sangrando; os banheiros dos espaços públicos não oferecem a menor estrutura (porque podemos ter papel higiênico e absorvente não?), e o seu colega provavelmente já faltou por uma gripe enquanto você foi trabalhar com cólica.

Se a nossa natureza parece tantas vezes inadequada é porque não temos recursos e estruturas pensados a partir dela. Se pelo menos metade da população mundial já menstruou ou vai menstruar, como podemos fazer disso um tabu? Como podemos pensar que isso atrapalha “o curso normal” da vida, se não há nada mais normal? Produtos como o copinho coletor e as calcinhas reutilizáveis não representam só economia financeira e avanço ambiental, mas também esse momento de maior compreensão e aceitação do feminino. Parece que aos poucos, com mais mulheres presentes nos processos de criação e tomada de decisões, conseguimos finalmente normalizar o que nunca foi exceção. E assim vamos fazendo as pazes com o nosso corpo.

Toda a minha experiência com aplicativos de calendário também me fez sentir bem melhor comigo mesma. Desde que eu comecei a tomar notas sobre como eu me sentia ao longo do mês, notei padrões físicos, de comportamento e de humor, o que tem me ajudado a identificar o que é normal para mim e o que não é. Ainda é um trabalho em progresso, mas cada vez sei mais o que esperar de cada fase e consigo coordenar algumas atividades de acordo com essas informações. Eu gosto de pensar nisso como uma previsão do tempo pessoal: quarta-feira vai chover mau-humor? Se puder, fico em casa. Domingo a disposição sai? Perfeito para uma caminhada.

 

Somos cíclicas e reconhecer isso é um processo de autoconhecimento que vai muito além de questões práticas como evitar gravidez ou saber se podemos sair de casa de calças brancas. Também somos únicas, e levei ainda algum tempo para perceber que não será um cálculo matemático que vai sozinho pré-determinar uma data certa para cada ação no meu organismo. Aprendi com a auto-observação que não somos um reloginho. Existe uma série de fatores que podem adiantar ou atrasar um pouco cada etapa e falar sobre o que é “regular” a partir de um modelo de 28 dias, ou esperar que os ciclos sejam idênticos, é mais um reflexo da maneira como nos cobramos perfeição.

Gosto de pensar que aos poucos abandonamos o lugar de negação do feminino, marginalizando esses assuntos ou fingindo que somos todas iguais, para abraçar quem somos de verdade. Quem sabe a mulher do futuro não seja mais aquela que tão desesperadamente se adapta ao mundo dos homens. Ela não emenda pílula nem toma injeções só para não ter que lidar com o incômodo de ser como é. Ela não tem nojo ou vergonha de nada que venha dela. Porque ela cria o seu próprio mundo e as ferramentas que precisa para viver bem nele.


Todas as imagens presentes nesse texto são da artista @sandyvanhelden

Flavia Doria é jornalista e fundadora do aletraeffe.com

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