Sociedade

Meu Bloco, Minhas Regras

Uma lei sozinha não faz verão. Mas é um começo; especialmente para as foliãs do carnaval desse ano – o primeiro depois do decreto que criminaliza o assédio no Brasil. Para qualquer mulher que aproveite o feriado nos bloquinhos, essa é uma pauta tão antiga quanto o próprio machismo em si. Ano após ano, vamos para as ruas em busca do nosso direito igualitário a diversão, catuaba, topless, bateria, glitter e sacanagem. Tudo no maior respeito… de nossa parte pelo menos. Afinal de contas, não é não. Será assim tão difícil?

Sendo do Rio, essa sempre foi minha época favorita do ano. Caminhar no asfalto com roupa de praia, em uma mão a latinha, na outra um brinquedo de plástico, aquele mutirão de gente cantando e dançando junto, homens de negócio preocupados em manter os cílios postiços no lugar. A cidade nas mãos de um bobo da corte, uma promessa de alegria. A rua é livre, eles dizem, mas deixa de ser quando uma mulher está sendo vigiada e tolhida por outros foliões. Volta e meia alguém confunde importunação e mão boba com alegria carnavalesca, quando é justamente o oposto. Antes do abuso vem a repressão. Porque é exatamente isso que um assediador faz: ele reprime e limita a farra dos outros quando se torna uma ameaça. Um verdadeiro careta.

Com uma origem na comemoração dos últimos dias em que a população comia carne antes de acatar à regra religiosa que a proibia, a festa se tornou sinônimo de subversão e anarquia. Um momento para agir contrário às ordens vigentes. Uma oportunidade de nos livrarmos das estruturas sociais opressoras. Interessante, né? Sabe um exemplo de regra social opressora? Isso mesmo, o machismo. Pode acrescentar aqui também a homofobia, o moralismo e todos os braços do conservadorismo. Portanto quando um cara passa a mão na sua bunda no meio do bloco, ele não só comete um crime como também inverte todo o espírito do carnaval. Ele não expressa a sua liberdade, ele impede a liberdade alheia.

O que acontece é que esse cara confunde liberdade com liberação. Liberdade é se ver livre de algo ou alguém, desobrigar, encerrar uma obrigação. Ou seja, quem deseja liberdade é quem antes esteve em algum tipo de prisão ou amarra – palavras que ressoam em cada corpo feminino, cis ou trans. Já liberação é um termo de origem mercadológica para o ato de liberar, permitir, autorizar que algo aconteça. No caso, a mão dele na sua bunda. Por isso assédio não é consequência da liberdade em demasia, mas sim da noção de que “tudo pode”. E com o perdão do trocadilho…não é assim que a banda toca. Não somos mercadoria e não, nem tudo pode.

A confusão entre esses conceitos também deixa uma imagem turva sobre o que nós mulheres fazemos quando propositalmente expomos a nossa nudez e a nossa sexualidade no carnaval. “Faço o que eu quero” parece insuficiente para debater a questão com quem ela precisa ser debatida. “Se você faz o que quer, eu também faço o que eu quero”, responderia o Sr. Libera Geral. Portanto, sair fantasiada só de purpurina e pouco mais, expor a pele e rebolar até o chão é melhor traduzido como “faço o que eu quero com o meu próprio corpo porque ele me pertence”. Isso é sobre re-apropriação do próprio corpo e de tudo que faz parte dele.

Assim também se define a noção de que esse cabeça-ombro-joelho-e-pé aqui não está à serviço de ninguém, muito menos do sexo oposto. Além disso, todo mundo sabe que o mesmo sujeito que critica o peito de fora da feminista no cortejo, aplaude o da rainha de bateria na televisão. O problema nunca foi o peito, mas o fato dele não estar ali para o olhar do desejo masculino. Meu corpo é político, mas não é público.

O que me lembra que quando eu era criança eu ficava muito intrigada com o Tim Maia cantando o que parecia ser um retrato de uma festança muito doida: “vale tudo/ vale o que quiser/ vale o que vier/ só não vale dançar homem com homem e nem mulher com mulher”. Quer dizer, que diabos é isso? Primeiro ele cria uma regra sobre não criar regras, para depois acrescentar uma exceção (homofóbica, diga-se de passagem) à mesma. Vale tudo para quem, Tim?

Talvez criar novas leis, oferecer estrutura de apoio às vítimas, empoderar mulheres e instruir homens nos blocos seja também um trabalho de desconstrução daquilo que ainda entendemos como folia. É dizer àquele que foi dono da bola durante tantos anos que ele não manda mais na brincadeira. Leva tempo, mas só quem ama esses preciosos dias de suor e cerveja sabe que vale a pena lutar.

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Todas as imagens presentes nesse texto são da artista @egle_zvirblyte

Flavia Doria é jornalista e fundadora do aletraeffe.com

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