Sustentabilidade

Mudanças Climáticas: Eu, Você e o Governo Também

No último mês, eu tenho me deixado influenciar por uma garota com quase metade da minha idade e acho que você devia fazer o mesmo. Greta Thunberg é o nome dela, a estudante sueca por detrás das Greves Climáticas Estudantis, que aconteceram em mais de cem países ao redor do mundo, incluindo Portugal. Desde o ano passado, Greta parou de ir as aulas para protestar em frente ao parlamento da Suécia, exigindo medidas contra as mudanças climáticas como o cumprimento do Acordo de Paris. Desde então já discursou no COP24, no Fórum Econômico Mundial, no Parlamento Europeu e foi capa da edição de maio da Revista Time. “Ninguém é pequeno demais para fazer diferença”, ela diz e eu, no auge dos meus 1,55 cm, concordo.

Tento me lembrar onde eu estava na idade de Greta e a verdade é que eu sempre fui um espírito ativista. Eu era bastante participativa na minha escola, fui representante de turma, frequentava os conselhos de classe e caminhava ao lado dos professores nas greves por melhores salários. Comparecia aos debates políticos, comícios; e tirei meu título de eleitor antes da maior idade para poder votar nas eleições presidenciais. No entanto, nunca protestei a favor de uma causa ambiental. Com alguma culpa, me pergunto o porquê.

Busco na memória a maneira como nos ensinaram sobre consciência ecológica. Trabalhos feitos em cartolina explicavam como as emissões de CFC destruíam a camada de ozônio. “Não podemos continuar a poluir o meio ambiente, precisamos pensar no futuro dos seus netos.” – era o que diziam para crianças de 11 anos. Naquela época não pensávamos em ter filhos, muito menos netos… mas também não foi preciso. Aqui estou eu, ainda jovem e sem descendentes, vivendo o aquecimento global e assistindo o desenrolar da extinção de mais de um milhão de espécies, inclusive a nossa.

A crise ambiental foi apresentada à minha geração como um problema do futuro. Talvez por conveniência, nos agarramos à ideia de que tínhamos tempo. Procrastinamos tudo como sempre. Mesmo assim, de lá pra cá aprendemos muito sobre a nossa responsabilidade e fomos os primeiros a ter que repensar o estilo de vida baseado na sustentabilidade. Enquanto na juventude dos nossos avós os movimentos da contracultura traziam as primeiras noções ambientalistas, nós já sabemos a missa de cor. Reciclagem, compostagem, upciclying e afins. Começamos a entender a importância de reduzir o consumo de água e de carne, das plantações de orgânicos, da policultura e…antes tarde do que nunca, os horrores da vida de plástico em que nascemos. Claro, não aprendemos todos no mesmo ritmo e somos gratos por aquele amigo – amiga, no meu caso – que nos lembra de aderir à nova alternativa sustentável do momento. Mas será o suficiente?

Greta me lembra que não. As mudanças climáticas são urgentes. Acontecem agora e não no futuro dos meus netos imaginários. Por isso, simplesmente não podemos tratar o tema como uma ideia que defendemos na teoria, nem como uma prática individual. Porque sejamos sinceros, mesmo quando colocamos a sustentabilidade no nosso dia a dia, agimos como se isso fosse sobre nós. De certa forma, cada vez que recuso um plástico na rua eu me sinto a salvadora do planeta. Mas ainda tenho tanto para mudar! E, mesmo que eu mudasse tudo, nunca faria nada sozinha. Esse é um problema coletivo e, ao que tudo indica, não temos mais tempo para esperar que sejamos todos educados no assunto. Para piorar, enquanto transformamos aos poucos o nosso cotidiano, 11 mil litros de água são gastos para produzir um único par de calças jeans e no último ano já batemos record nas emissões de CO2.

Pânico, eu sei. Mas a solução está aqui e às vezes só precisamos ouvir os mais jovens. Até 2020 estão previstas pelo Acordo de Paris uma série de medidas a nível internacional para a redução da emissão de gases estufa. Atualmente, os EUA já se retiraram do acordo e o atual governo brasileiro, apesar de se manter nele, já vem tomando medidas contrárias como, por exemplo, a extinção da Secretaria de Mudanças do Clima. Vamos continuar o bom trabalho, mas vamos cobrar de quem cria as regras do jogo. O futuro é agora.

 


Todas as imagens presentes nesse texto são da artista @agathesinger

Flavia Doria é jornalista e fundadora do aletraeffe.com

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