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Perguntei a Várias Mulheres Sobre Suas Histórias de Burnout

A jornalista Izabella Carmargo virou notícia quando fez um acordo milionário na Justiça com a Rede Globo, depois de sofrer burnoutCaracterizada pelo stress laboral crônico, a síndrome é causada por um esgotamento físico e/ou emocional no ambiente de trabalho. Segundo estatísticas do Google, ele é um dos temas mais procurados por brasileiros e este ano a Organização Mundial de Saúde incluiu o burnout na sua lista oficial de doenças. Os principais sintomas são a exaustão emocional (sensação de sobrecarga); a despersonalização e a desumanização (como por exemplo o afastamento voluntário da vida social e dos colegas de trabalho) e a baixa realização profissional (perda de interesse e propósito nas atividades profissionais).

Há quem diga que estamos falando da doença do século e que suas maiores vítimas são as mulheres. Ou pelo menos é o que nos mostra a publicação de Adam Grant e Sheryl Sandberg no New York Times, que conta com uma pequisa com 183 estudos sobre diferenças de gênero e burnout em 15 países. “Em grupo de mil profissionais, há 540 mulheres para 460 homens com burnout.” Pensando nisso, perguntei a cinco mulheres que passaram por esse pesadelo sobre suas histórias pessoais. Aqui está o que elas disseram:

 

Soraia,

34, Marketing Digital e Comunicação

Como foi o seu burnout?

“Eu passei por um burnout que foi particularmente preocupante. A carga psicológica, a pressão pela responsabilização num trabalho em que eu era a mais nova, a que recebia menos, mas era dada e achada como a “peça mais importante” levou-me a sentir cansada e excessivamente preocupada com o trabalho. Para além disso, o salário baixo fazia com que me sentisse frustrada. Tive de abdicar de algum tempo pessoal para o trabalho ao fim de semana e isso fez com que deixasse de praticar yoga, que eu adorava, e levou-me a entrar num ciclo repetitivo de preocupação e stress.”

O que você fez para lidar com a situação? Você contou o que estava passando para alguém do trabalho?

“Acabei por me sentir esgotada e procurei ajuda. Diagnosticaram me [com] Síndrome de Ansiedade Generalizada e comecei a tomar medicação para dar um incentivo de manhã e [para] dormir. Senti-me completamente alienada. Comecei a praticar desporto, emagreci imenso e, passado uns meses, apareceu uma oportunidade para outro trabalho e quando mudei senti-me “livre”. Continuei a medicação mas entretanto pedi ajuda a um terapeuta, fiz terapia e tentei deixar a medicação.”

Passar por isso mudou a maneira como você trabalha hoje?

“Hoje em dia já não estou a tomar [a medicação], já passei por mais 2 locais de trabalho diferentes e aprendi que em todos eles, vão querer tirar-nos do sério, pressionar-nos e nós temos que ter as nossas “técnicas”. Faço terapia regularmente para equilibrar, mas também tento disciplinar as pessoas para que saibam que valorizo o meu tempo livre e tenho que descansar. Valorizo também a chamada higiene mental diária, ouvir musica que gosto no caminho para o trabalho, ouço videos que me inspiram, medito semanalmente e tento passar essa mensagem a quem sinto mais sensível a isso.”

Algum conselho?

“Não ha nada de mal em ter um problema que exige terapia, é normal e comum. Deveríamos falar nestas coisas mais abertamente.”

 

                 

Camila,

31, Psicóloga

Como foi o seu burnout?

“Meu burnout foi motivado por um emprego abusivo. Meu chefe me assediava moralmente todos os dias. Passei a ter insônia todas as noites, me tornei uma pessoa nervosa, emocionalmente frágil. Fisicamente sentia dores musculares e enxaqueca praticamente todos os dias, minha pele envelheceu 10 anos, meus cabelos começaram a cair, sem falar nos cabelos brancos que apareceram nessa época também.”

O que você fez para lidar com a situação? Você contou o que estava passando para alguém do trabalho?

“Foi complicado entender que não era normal aquilo que eu vivia. Conversava muito com minha namorada em casa, o que foi péssimo para nossa relação porque ela ouvia meus desabafos diários e acabava absorvendo uma carga muito negativa. Eu me tornei uma pessoa negativa, mas em algum momento entendi que precisava sair daquele ambiente tóxico. Estava no limite. Antes de tudo tentei de todas as maneiras melhorar a situação conversando com meu chefe, mas entendi que ele não mudaria, então pedi demissão. “

Passar por isso mudou a maneira como você trabalha hoje?

“Procurei outro emprego (onde estou hoje) e minha vida mudou. Minha chefia é humanizada e a empresa que trabalho preza pelo bem estar do funcionário. Nunca mais tive insônia, parei de fumar, tive tempo para pensar em mim. Agora faço exercícios físicos e mudei minha alimentação também. Isso tudo que passei mudou minha visão de atuação enquanto profissional de Recursos Humanos. Hoje trabalho para que ninguém passe por situações como as que vivi.”

Algum conselho?

“Como conselho digo que não devemos aceitar situações com as quais não concordamos por pensar que é nossa única opção. Não vale a pena se submeter a nenhum tipo de abuso e deixar de lado o que realmente importa: nosso equilíbrio e felicidade. 🙂 “

 

Vanessa,

28, Motion Designer

Como foi o seu burnout? Você manifestou algum dos sintomas citados?

“A exaustão emocional e a consequente incapacidade de ter energia para fazer algo fora do circuito de trabalho. Estava a trabalhar umas 12 horas por dia ou mais, incluindo fins-de-semana e recebia chamadas a uma meia-noite de sexta para ir trabalhar. O ambiente de trabalho era bastante bom a nível de pessoas e a entidade patronal aproveitava-se desse suposto ‘ambiente descontraído’ para nos manter a fazer horas extras todos os dias.”

O que você fez para lidar com a situação? Você contou o que estava passando para alguém do trabalho?

“Inicialmente, como realmente gostava de lá estar e conviver com as pessoas que ainda hoje considero minhas amigas, não sentia tanto (quer fisicamente quer psicologicamente). Com o passar do tempo comecei a ter o meu cansaço e decidi não passar tantas horas no trabalho. Quando isso aconteceu (e mesmo assim passava mais de 8 horas no trabalho) comecei a sofrer represálias da entidade patronal sobre como estaria a ‘abandonar os meus colegas’ ao decidir descansar quando eles não o faziam. Cheguei a estar 15 horas em frente a um computador e foi a falar com os meus colegas, igualmente infelizes mas sem saber dizer “não”, que percebi que estava incluída em todo um circuito de Síndrome de Estocolmo. Tive que me despedir antes de ter um esgotamento.”

Passar por isso mudou a maneira como você trabalha hoje?

“Atualmente sou freelancer, portanto mesmo que haja alguma deadline que me pressione a trabalhar uma maratona de horas, compenso imediatamente com imenso descanso. Não adianta querer fazer o universo em 12 horas quando o nosso cérebro começa a ficar com danos irreparáveis para prosseguirmos.”

Algum conselho?

“Um trabalho é importante sim, mas vale a nossa saúde mental? Agora dito eu os meus prazos e sei dizer não a um cliente, quando sei o que aquilo implica. Num trabalho das 9 às 18 horas sei que isso não é tão possível assim, mas se não colocarmos limites à entidade patronal, eles não só vão abusar de você como também do colega ao seu lado se você disser que sim. E a que custo?”

 

Clarisse, 

40, Redatora

Como foi o seu burnout? Você manifestou algum dos sintomas citados?

“Meu burnout começou a ocorrer quando eu pedi o primeiro feedback para minha chefe e ela sentiu-se ofendida. Eu quis compreender por que ela colocava “jobs” sob minha responsabilidade e não deixava eu finalizá-los. Desde então, o relacionamento ficou crítico. Sofri represálias e me humilhava muito para manter a relação. Isso em razão da fragilidade e do medo de perder o emprego. Desenvolvi depressão, e a autoestima era algo que eu nem mais sabia o que era. Nunca faltei um dia de trabalho, sempre procurei dar o melhor, mas percebi que era algo além disso. […] Eu também incomodava por ser questionadora e por querer entender os processos. Os elogios de gestores de outras áreas eram constantes também, o que acabou resultando em uma recompensa muito grande de bom trabalho
que realizei para uma campanha que durou todo um ano. Eu fui escolhida para uma viagem internacional. Essa viagem acabou sendo a porta de entrada para o assédio moral que sofri dela [a chefe]. Ela gritava, me xingava, dizia que eu não era nada, que eu não passava de uma porcaria qualquer.”

O que você fez para lidar com a situação? Você contou o que estava passando para alguém do trabalho?

“Fiquei muito mal, e descobri que pessoas da área também vinham passando pelo mesmo problema. E essas pessoas em quem eu achei que podia confiar, me disseram para ir ao RH. Fui ao RH da empresa, contei tudo que vinha sofrendo e disse que tinha certeza de que ela me mandaria embora se soubesse da minha denúncia. Mesmo assim, o RH dizendo que me protegeria, fui mandada embora em tratamento psiquiátrico. Não puderam me mandar embora e eu fui para o INSS. Assim que o INSS me deu alta, disseram no RH que eu seria reconduzida e, no dia 3 de julho de 2019, não me deixaram nem passar da catraca do prédio. Me mandaram embora lá na recepção.”

Passar por isso mudou a maneira como você trabalha hoje?

“Mudou sim, ainda tenho medo, a confiança em mim mesma ainda está muito abalada. Ganhei um tremor nas mãos e, pela primeira vez na vida, tive de tomar medicação forte para dormir e antidepressivos. Contudo, como eu preciso muito trabalhar, a necessidade fez com que eu tirasse uma forca lá do fundo para continuar a trabalhar. E o mercado nunca me deixou sem trabalho. Tenho uma família que é a base da minha força e duas filhas lindas que são a razão de eu continuar. Tenho a certeza de que superando totalmente isso serei ainda mais forte do que sou.”

Algum conselho?

“O conselho que dou é nunca deixe ninguém te diminuir, te humilhar ou dizer que você não é nada. Cabeça erguida, dê o seu melhor e siga sempre em frente. Evite entrar em conversas e fofocas em trabalho, isso pode piorar as coisas.”

 

Raquel, 

31, Especialista em Marketing

Como foi o seu burnout?

“Trabalhei 3 anos no [nome da empresa]. Nos primeiros seis meses estava encantada, o gerente que me contratou me apresentava como ‘peça-chave’ da equipe para todos os executivos dos setores. Sentia a responsabilidade e estava disposta a cumprir todos os desafios. Depois de alguns happy hours, a proximidade com a minha equipe e  com outros departamentos me levou a encarar alguns assédios, com frases como: ‘a minha meta é a Raquel’ e outras ‘brincadeiras’ desse tipo durante reuniões.” […] “O segundo ano foi marcado pela insatisfação com as decisões tomadas pela minha equipe, principalmente pelo profissional que me assediava constantemente.” […] “A briga entre as áreas me fez levantar a bandeira “eu sou a especialista da área e não você”, o que trouxe ainda mais projetos e trabalhos para mim. Eram 10 horas de trabalho por dia. Internamente eu pensava: ‘vou mostrar para eles que eu posso fazer tudo. Sou competente e adoro o que eu faço. Não vou deixar minha opinião técnica ser substituída por um achismo de um gerente’.”

“[…]tivemos uma mudança de gerente, que fez com que eu tivesse que defender nossos projetos e resultados para o próprio novo gerente. Ele não tinha confiança na equipe e no trabalho que vinha sendo feito e eu me senti sozinha defendendo nosso orçamento e projetos diante das outras equipes. […] esse gerente, em uma reunião, disse que a confiança em mim pelos executivos da empresa estava quebrada, pelos confrontos profissionais e que eu deveria reconquistá-los. Se possível, ligando para o telefone pessoal e perguntando como eu poderia ajudar nas metas deles. Eu não fiz isso. Eu não queria ser amiga, queria ser respeitada profissionalmente. Sem precisar bajular para ganhar confiança. Essa bajulação vinha com um ar de assédio e eu não estava mais disposta a aceitar. Ir para o trabalho começou a ser uma tortura e todos os dias eu dizia para mim mesma: eu não aguento mais.”

“A área de comunicação era vista como a ‘gastadora’ que não trazia resultado, quando vários ganhos e planejamentos estavam provando o oposto. E a defesa da área e dos projetos, além da minha própria imagem, me esgotou física e emocionante. Eu estava sobrecarregada e me sentindo incompetente. Parei de dizer que gostava do que fazia e pedi demissão, que foi atendida em 2 dias.”

 
O que você fez para lidar com a situação? Você contou o que estava passando para alguém do trabalho?
 
“Quando eu entendi que o que eles queriam era mais importante do que a performance, eu tentei segui-los. Mas óbvio a crítica não deixou de vir, porque os resultados não vinham. Contei para as pessoas que trabalhavam diretamente comigo, e a resposta era sempre: aqui é assim mesmo.”
 
Passar por isso mudou a maneira como você trabalha hoje?
 
“Eu ainda não consegui me recolocar e sinceramente não sei se quero trabalhar com uma empresa tão política e chega de hierarquia. Atualmente, não quero nem trabalhar com comunicação. Estou estudando programação para mudar de ar.”
 
Algum conselho?
 
“O conselho que eu não segui: continue acreditando na sua competência.” 
 
 

Todas as entrevistas foram cedidas voluntariamente. Alguns nomes foram alterados para preservação da privacidade da entrevistada.

Todas as imagens utilizadas neste texto são de autoria da artista @silviarodrigues.me

Flavia Doria é jornalista e fundadora do aletraeffe.com

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