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O Futuro Feminista é Decolonial

“As lutas não são propriedades privadas, as palavras tampouco. O feminismo não nasceu em França. Nasceu e nascerá em todo território onde enfrentemos o sistema patriarcal de morte.”

Essas palavras de Adriana Guzmán Arroyo, autora e ativista boliviana do Feminismo Comunitário de Abya Yala, tem ganhado para mim raízes mais profundas do que a sua sólida e nítida constatação de que o feminismo é uma luta universal não eurocêntrica. Em meio às últimas derrotas e conquistas das mulheres na América Latina, e às discussões vanguardistas que resultam dessa intensa disputa por espaço, não resta dúvidas de que o movimento ganha vida onde ele é mais necessário.

O mais recente exemplo disto aconteceu neste último domingo 25 de outubro no Chile, quando pela primeira vez na história da humanidade temos uma Constituição com paridade de gênero. Escrita por uma assembléia composta por um grupo popular dividido em 50% de homens e 50% de mulheres — o que é mais do que o dobro da participação feminina em qualquer outra Constituição do mundo — ela vem para enterrar de vez o último resquício da ditadura golpista de Pinochet no país. Chi-chi-chi-le-le-le! Viva Chile! Sobretudo, viva a mobilização das feministas chilenas. 

Foram meses seguidos em 2019 vivendo uma verdadeira rebelião, fortemente reprimida pela polícia. O que poderia ter sido apenas uma onda de revolta popular por questões econômicas (quando as primeiras manifestações secundaristas pelos preços das passagens pareciam se assemelhar às infames “manifestações dos 20 centavos” no Brasil) acabou sendo aprofundado para uma pauta mais completa que revelava a grande insatisfação chilena com o modelo neoliberal como um todo. As consequências das desigualdades geradas por décadas desse modelo político culminaram na urgência de se fazer ouvir as vozes mais silenciadas até então: as mulheres e os indígenas. 

Assim, a grande presença das mulheres e das mulheres Mapuches fortaleceu simultâneamente os protestos, que ganharam forte agenda pela igualdade social, e para e o movimento feminista em si. Quando tomaram as ruas em outubro passado, elas foram ouvidas não só por seus compatriotas, como por todos os cinco continentes. A letra do seu hino de protesto “Un violador en tu camino” foi traduzida em diversas línguas e a sua performance foi reprozudida em cerca de 300 cidades e viralizou na internet. Cinco meses depois, nas marchas de 8M desse ano, o país registrou a marca histórica de 2 milhões de pessoas. “Nunca más sin nosotras” elas gritavam para denunciar a falta de representatividade na política institucional. Um ano depois é confortável dizer que elas são protagonistas no debate político do país.

A força do feminismo sulamericano também está por trás do atual desenrolar da democracia na Bolívia. Depois da saída forçada de Evo Morales, no golpe escandaloso em que uma vice do Senado se autoproclamou presidente com uma Bíblia em uma mão e as forças armadas em outra, parecia improvável que tão cedo o país voltasse a ter eleições democráticas. Foi um ano de forte crise política, com denúncias internacionais de prisões políticas, tortura e perseguição de mulheres de “pollera”(de povos originários) em conjunto com a pandemia. Mas graças às movimentações populares organizadas de forte caráter indígena e feminista, sob a liderança de mulheres como Adriana Guzmán e Julieta Paredes, os bolivianos finalmente foram às urnas. 

O resultado a favor da restituição do partido de Evo, o MAS, vem acompanhado também de uma grande transformação no Senado, que agora será ocupado em mais da metade por mulheres. Dentre elas está a prefeita Patrícia Arce, a quem antes conhecemos nas notícias por ter sido vítima de um linchamento público por grupos fascistas. Hoje, a Bolívia está em terceiro lugar mundial em representação de mulheres no Parlamento, atrás apenas de Ruanda e Cuba. 

Em um contexto de altos índices de assédio violência de gênero, as conquistas das bolivianas não foram consequência de uma transição pacífica de pensamento na sociedade, mas sim resultado de uma batalha muitas vezes sangrenta. Ameaças e assédios marcaram a vida das mulheres que ocuparam cargos políticos nos últimos anos, incluindo o assassinato em 2012 de Juana Quisp, vereadora que havia apresentado queixas de assédio e defendia uma lei para proteger as mulheres na política. Aprovada no mesmo ano, essa lei ainda é a única do seu tipo no mundo. Desde 2018, na Bolívia, a participação feminina é garantida pela lei que reserva vagas paritárias nas eleições.

Atualmente, segundo dados da ONU, a América Latina é líder global em cargos locais e parlamentares ocupados por mulheres. O que pode parecer curioso pensar quando ainda relacionamos a emancipação política feminina com a imagem da luta das inglesas ou das francesas. Mesmo quando pensamos historicamente nas sufragistas, insistimos em creditar a França como uma “origem” de toda filosofia igualitária e não, por exemplo, a Nova Zelândia, que foi na verdade o primeiro país a adotar o voto das mulheres. Aqui, mais uma vez, a fala de Guzmán se mostra muito poderosa: “O feminismo não nasceu em França” e a própria necessidade de concentrar em um ponto geográfico europeu um movimento universal, que aconteceu simultaneamente no norte e no sul do globo, denota as relações da colonização do saber na nossa compreensão da história do feminismo.

Assim também não podemos dizer que Chile e Bolívia seja casos isolados, sendo eles frutos de um contexto que nos une seja na história passada como na que se escreve hoje. Impossível não falar da longa e notável trajetória das argentinas desde sua forte resistência nos tempos de ditadura e das Mulheres da Praça de Maio até os incansáveis esforços recentes da “maré verde” pelo direito ao aborto seguro legal e gratuito que serve de referência na discussão mundial do assunto. Também não é só nesses dois países que a participação de mulheres indígenas está atualizada e no epicentro das transformações sociais, no Brasil, elas se unem às mulheres negras como as principais vozes de uma discussão cada vez mais e mais sofisticada. É graças a elas que a questão da demarcação de terra e da reforma agrária foram aderidas ao moviemento feminista e são elas que se recusam a entregar a pauta ambiental na mão do liberalismo. 

Enquanto a dita quarta onda no hemisfério norte é fortemente marcada pelas questões do combate ao machismo assédio sexual e sem dúvidas o #metoo vai ser sempre lembrado como um divisor de águas, na América Latina, com perdão ao trocadilho, o “buraco é mais embaixo”. O feminismo decolonial se apresenta não só como uma rejeição do machismo, mas principalmente como um ataque direto ao patriarcado em busca do desmantelamento das suas estruturas político, econômicas e sociais. É um farol aceso que apresenta soluções e abrigo para quem procura pensar um futuro mais democrático.

Flavia Doria é jornalista e fundadora do aletraeffe.com

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