Sustentabilidade

Quando Sustentabilidade Vira Volta às Aulas

Entre a black friday e o Natal, eu penso sobre os nossos hábitos de compra. Nos últimos anos, assim como muitos de vocês, tenho feito esforços para adotar o que já se chama de consumo sustentável. Acontece que, com tantas opções de artigos em materiais alternativos ao plástico no mercado, eu me pergunto se não estamos sucumbindo à armadilha de acumular mais bens sob o pretexto de boas intenções ambientais. Eu posso estar enganada, mas me parece que dos sete “erres” da sustentabilidade – Repensar, Recusar, Reduzir, Reparar, Reintegrar, Reciclar e Reutilizar –  reduzir ainda é o mais difícil.

 

Canudos de inox, canudos de bambu, canudos de papel… hummmm e que tal, sem canudos? Claro, estes são realmente importantes para aqueles que dependem dele como idosos, crianças ou pessoas com algum tipo de impedimento motor. Mas às vezes a solução é tão simples quanto beber de um copo. O mesmo raciocínio vale para as inúmeras ferramentas – todas em versões mais sustentáveis e sem dúvidas melhores para o meio ambiente – que nos apressamos em encomendar na internet. Compramos aquilo que precisamos? Ou será que estamos todos obcecados por uma estética da sustentabilidade em que exibimos um “kit verde” na bolsa, no maior estilo volta às aulas “meu material é mais bonito que o seu”.

 

Existe um lado exibicionista em todos nós desejoso de ser notado por suas incríveis opiniões e atitudes. E não podemos ignorar que as causas ambientais entram muitas vezes nas discussões por aí como uma certa superioridade moral. A cada sacola de mercado recusada nos sentimos o próprio Capitão Planeta. Mas então, como os outros vão me perceber dessa forma se eu não tenho nada para mostrar? Não dá pra exibir aquilo que não compramos. Além disso, é difícil reduzir quando estamos mergulhados no processo ansioso de substituir tudo aquilo que já possuímos, esquecendo que nesse processo nossas peças anteriores se transforam em lixo.

 

Ok, é normal se preocupar um pouco com o que os outros pensam de nós, mas o que acontece quando deixamos que a vontade de parecer eco friendly passe por cima das atitudes que realmente nos fariam como tal? Pela lógica, levarmos os talheres de casa para o refeitório do trabalho é mais ecológico do que comprar uma versão de materiais orgânicos especial para tal ocasião. Da mesma maneira, usar aquela sacola de plástico que você tem na sua cozinha (se você tiver uma) vai ser sempre uma opção melhor do que comprar uma nova de tecido. Sacas de embalagens usadas à espera de serem levadas à reciclagem. Potes de margarina que agora guardam o almoço de ontem. Jeans com um remendo. Unhas sem esmalte. Eu sinto muito, mas a maioria das vezes ser sustentável não é “instagramável”.

 

Seja como for, não vale a pena se sentir obrigado a ter todos os novos gadgets ecológicos. E como diria o primeiro “erre”, repense. Às vezes você realmente precisa comprar; mas às vezes não. Não se esqueça também que o que funciona para uma pessoa, não funciona pra outra. Nossas rotinas e realidades são diferentes e nossa maneira de contribuir para o meio ambiente também vai ser.

 


Nota: canudo = palhinha

Todas as imagens utilizadas são de autoria própria

Flavia Doria é jornalista e fundadora do aletraeffe.com

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