Autoamor

Por que a Quarentena Precisa Ser Produtiva?

Era de se esperar que durante uma quarentena mundial, quando fomos coletivamente forçados a parar de trabalhar, pudéssemos finalmente relaxar um pouco. Ao invés disso, em plena pandemia, tudo que eu vejo são listas e mais listas sobre o que podemos fazer para tornar essa experiência toda mais produtiva. Livros para ler, hobbies para começar, rotinas de treino em casa, projetos e mais projetos. Parece que a ansiedade de não saber se nossos familiares e amigos ficarão bem, ou se vamos ter dinheiro no final do mês, não era suficiente. Precisávamos mesmo nos cobrar com obrigações completamente inventadas disfarçadas de incentivo. Um F.OM.O impossível, um medo de ficar de fora mesmo quando estamos todos dentro de casa.

 

Dentro de uma sociedade capitalista, eu entendo que quanto mais eu produzo, mais eu tenho valor. E agora mais do que nunca fica evidente que aplicamos essa lógica não só no trabalho, mas em tudo fazemos. Assim sentimos que devemos desempenhar essas atividades não laborais sob a mesma lógica de produtividade que aplicamos no trabalho. Quanto mais eu me comprometo com elas, sempre escalando em quantidade sobre tempo, mais eu me valorizo. Então a minha auto percepção é afetada quando eu digo: “Hoje tive um dia muito produtivo! Fiz meu treino de manhã, cozinhei, li 5 capítulos daquele livro” com alívio e bem estar, enquanto em contrapartida, sinto culpa quando não consigo ter o mesmo desempenho.

 

Mas afinal, por que nos sentimos assim? Para entender melhor isso tudo, eu chamei a psicanalista Marina Morena Torres (que eu tenho a chance de chamar de amiga) para uma conversa nem tão informal assim:

 

Por que eu como indivíduo (e todos nós) sinto que preciso ser produtiva mesmo quando não estou trabalhando?

“A primeira coisa que eu acho importante lembrar é a origem da palavra indivíduo. Indivíduo significa indivisível. O indivíduo seria um ser que é idêntico a si mesmo, que concorda consigo mesmo. Existe uma série de correntes dentro da psicologia que tem essa ideia como base. Se nos consideramos seres indivisíveis, logo não há lugar para divisão. Então na minha opinião, se você tem essa perspectiva de que as pessoas são mesmo indivisíveis, você entrega elas de mão beijada para a sanha produtiva do capitalismo. Como assim? Se a pessoa não se sente inteira, um ser unificado, ela logo acha que existe algo de errado com ela. Ela acha que tem algo que está faltando e ela julga que precisaria tapar essa falta  para sentir uma suposta unidade.

Assim, a meu ver, o capitalismo nos vende a ideia de que a felicidade estaria no sentimento de completude. Então para você se sentir feliz, você precisaria estar completo, ou seja, não faltoso.

E aí o capitalismo entra oferecendo esses objetos para a gente tapar essa falta que sentimos. Obviamente é um ciclo contínuo de fabricação desses objetos que podemos chamar de objeto-fetiche. É um movimento que nunca se acaba. Por exemplo, poderíamos interpretar as propagandas nesse sentido cíclico: “quando você tiver um I Phone x você vai se sentir feliz.” Aí você vai, depois de um esforço, compra o tal do IPhone X, e ainda assim não se sente completo. Digamos que você se sinta meio prostrado, meio parado. Daí você engorda, e vem o capitalismo oferecer uma outra solução, digamos, um “coach de emagrecimento”. É um movimento infinito de consumo, de tornar as pessoas em consumidoras. É claro que ao me referir ao capitalismo dessa maneira estou fazendo uma redução grotesca. Melhor seria pensarmos como uma lógica, a lógica capitalista.

Dá pra ver o quanto que essa lógica capitalista atravessa as nossas relações, com os outros e com a gente mesmo. Ela está tão internalizada que mesmo durante uma pandemia, um caos absoluto, uma situação absurdamente angustiante e de quarentena em casa, a gente sente a pressão de se manter ‘produtivo’. Como se o capitalismo dependesse disso. E de fato depende! Porque para você ser produtivo você continua consumindo esses objetos que supostamente te faltam – só que agora todos eles são online. Uma aula de dança, um ebook de receitas para fazer durante a pandemia, etc.”

 

Então repetimos o nosso comportamento em todas as áreas da nossa vida para nos sentirmos mais inteiros. Mas se esse mecanismo não funciona e ainda nos torna em consumidores ansiosos, o que sobra?

“Acaba que algumas correntes da psicologia reiteram a lógica do capitalismo, sem criticá-la. Aquelas correntes comportamentais que partem da ideia de que existe um comportamento que seria o normal – que ninguém tem como encaixar – e a partir desse desencaixe tem uma série de “objetos soluções” para que você tente se adequar. São essas psicologias do fortalecimento do self, que partem desse princípio do indivíduo, como falamos mais cedo.

E o que vai na contramão dessa lógica toda? A psicanálise. Lá em 1900 o Freud descobriu o inconsciente. Descobriu que “o Eu não é sujeito na sua própria casa”. O que que isso significa? Significa que nós somos sujeitos divididos, sujeitos do inconsciente. Por exemplo quando a gente não sabe porque a gente gosta de uma coisa que nos faz mal. É aquilo que não faz o menor sentido, mas mesmo assim mexe com você de tal ou tal maneira. Ou, para voltar ao nosso exemplo do capitalismo, quando você pode comprar tudo, mas ainda assim não se sente feliz. Mais uma vez se confunde felicidade com consumo e a enganosa ideia de completude.

Você é um sujeito dividido, você é um sujeito faltoso e não vai existir nenhum objeto que complete. É dado que a falta está aí e a falta está para todos. Então a psicanálise vai na contramão que é não ficar tentando encontrar objetos que tapem a falta, mas de poder fazer alguma outra coisa com a falta.”

 

Então o que a gente pode fazer para lidar com esse momento de crise em que as nossas “faltas” ficam tão evidentes?

“O que cada um vai inventar é muito singular e não tem um manual para prever, essa é a aposta. Precisamente por isso é um movimento contrário à massificação do capitalismo. O capitalismo está sempre te dizendo o que você precisa. Mas ninguém vai te dizer como lidar com a sua falta sem ser pela via do consumo, necessariamente.

É lógico que nós somos todos sujeitos que vivemos numa sociedade capitalista e por isso a lógica capitalista vai atravessar as nossas relações. Contudo, é importante questionar como podemos deixar um pouco de espaço para divisão. Poder falar sobre a divisão, sobre aquilo que angustia a gente. A nossa geração nunca viveu uma situação como essa!

Uma dica possível seria tentar de alguma maneira entrar em contato consigo mesmo, dando espaço para as invenções que apareçam nesse momento. Nesse sentido, não há soluções prontas, ou mesmo feitas por outras pessoas. É inventar mecanismos próprios para lidar com esse momento inédito.”

 

Flavia Doria é jornalista e fundadora do aletraeffe.com

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