Autoamor

Somos Todos Xuxa Contra o Baixo Astral

“Xuxa é uma apresentadora de televisão que convoca as crianças para colorirem muros pichados na cidade. Enquanto isso, Baixo Astral, um ser demoníaco que vive nos esgotos, decide se vingar de Xuxa sequestrando seu cachorro, Xuxo.” Esse é o resumo da Wikipédia sobre um clássico da infância dos millennials brasileiros, que trinta anos depois me parece mais atual do que nunca. Longe de ser o filme mais educativo para crianças e, como tudo que vinha da Rainha dos Baixinhos, um delírio pop dos anos 80, “Xuxa Contra o Baixo Astral” tem sem dúvidas o vilão mais temido do mundo: a famosa bad.

Assim como a personagem de Guilherme Karan, a bad é aquele sentimento negativo que paira no ar e bate em nossa porta tentando tirar as coisas boas da vida, assim como o mascote da história. Mais que uma tristeza, menos que uma depressão, o baixo astral é contagioso e aos poucos leva um por um. Pesado, eu sei, mas o momento pede por essa conversa. Ansiedade nas redes sociais, crises políticas ao redor do mundo, queda de democracias, ascensão do fanatismo religioso, fake news, excesso de trabalho – ou a completa falta dele, perda de direitos básicos, aquecimento global… Já dizia o poeta, “o clima tá tenso”. Não está tudo bem. E apesar do que diz o seu feed no Instagram, ninguém está bem também.

A bad bate para todo mundo de vez em quando e faz parte dessa coisa doida que é o ser humano, especialmente em momentos como o atual em que além dos nossos problemas individuais temos um contexto coletivo de muita tensão. Sem dúvidas 2019 foi um ano complicado para muita gente e eu cada vez entendo mais a cena em que a Xuxa começa a desmaiar, dizendo que está perdendo suas energias positivas. É difícil manter o espírito com tanta coisa ruim acontecendo ao redor, mas pode ser ainda pior e mais cansativo fingir que está tudo bem. Acho que é o caso de aceitar para doer menos.

Misticasinha que só ela, nossa heroína salva o dia com um cristal que emana “super carga positiva”. Infelizmente, na vida real, o discurso Pollyanna resolve muito pouco e não existe uma receita universal para se sentir melhor. Nos últimos anos eu aprendi que abraçar a minha própria vulnerabilidade funciona como um primeiro passo para espantar a tristeza ou o desânimo. Mas a solução pode vir de diversas formas. Às vezes tudo que a gente precisa é parar para reclamar ou chorar um pouquinho. Ou quem sabe sentar para ver uns memes. Ouvir música. Em alguns momentos tudo se resolve quando ficamos um pouco sozinhos, em outros, quando conversamos com os amigos.

A gente vive numa sociedade que se cobra um padrão de felicidade constante e todo mundo deseja lá no fundo transparecer para o outro como um cristal sem defeitos. Eu continuo convencida que essa obsessão pela “good vibe” ideal ainda nos vai deixar cada vez mais frustrados e infelizes. Reconhecer que em alguns momentos o Baixo Astral é a gente mesmo não nos torna pessoas piores ou inferiores, apenas normais. Se até a Rainha travou essa batalha, porque não nós?

 

Notas:

¹Depressão é uma doença. Não é bad, nem tristezinha e merece acompanhamento médico. Se ame, se cuide.

²: Eu queria mandar um beijo pra minha mãe, para minha vó e um especialmente para você que me lê ;P


A imagem utilizada nesse texto é um GIF retirado do filme “Xuxa Contra o Baixo Astral”,  escrito e dirigido por Anna Penido

Flavia Doria é jornalista e fundadora do aletraeffe.com

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

error: Conteúdo protegido :)