LIKE A BOSS

Sobre Como Eu Aprendi a Valorizar o Meu Trabalho

Os meus textos por aqui são sempre mais jornalísticos, eu gosto de trazer muitas fontes, de falar sobre um viés socio político sobre as coisas que estamos vivendo coletivamente. Mas hoje eu quero expor umas reflexões pessoais, porque eu também sei que o particular é coletivo e vice e versa. Na esperança dos nossos sentimentos compartilhados, fica aqui uma história minha sobre trabalho, profissionalismo e autoestima:

Eu tive um chefe que eu nunca vou esquecer. Ele tinha a idade para ser meu pai, estava de bom humor todos os dias e trabalhava num lugar que eu amava. Cantoralava coisas estúpidas, mantinha um bom relacionamento com todos. Como sua estagiária, eu acreditava que poderia ter mais responsabilidades do que tinha e percebia que ele ficava com o trabalho “divertido” e eu com o disparo de emails. Mas tudo bem, ele me tratava com ares de tutor e, sem querer tornar isto em algo sexual, a Electra que vive em mim adorava e depositava um certo grau de admiração nessa figura parteno-profissional.

Éramos só nós os dois na comunicação. Um dia, ele pediu que eu executasse uma tarefa que ele decidiu e planejou sozinho. Como não se tratava de nada anormal, eu nem questionei. Acontece que a direção da nossa instituição não gostou da inciativa e, especialmente, do fato de não ter sido consultada. Quando a diretora geral o confrontou diretamente, esse homem de cargo importante e tantos anos de experiência, seempre coberto pelo manto da minha cegueira, não pestanejou ao responder à sua superior com o dedo apontado para mim:

Quem fez isso foi ela.”

Eu. A estagiária que não podia opinar nem na temperatura do ar condicionado, era de repente a responsável por uma ação ousada do meu departamento.

Nesse dia eu aprendi algumas coisas. A primeira delas era a de que ele não merecia o lugar acima de mim em que eu o coloquei. E a segunda era que nós supomos que as pessoas que estão ocupando os espaços que sonhamos ocupar são melhores do que nós. Além, é claro, das suposições clássicas sobre homens brancos e a credibilidade mágica que eles ganham conosco só por existirem no ambiente de trabalho. Aprendi que, até que se prove o contrário, ninguém é profissional só por estar trabalhando ou porque tem experiência. Profissionalismo não vem com diploma, nem com gravata, nem com currículos incríveis. Porque profissionalismo diz respeito à uma ética profissional, ou seja, um conjunto de coportamentos que englobam, mais do que suas competências técnicas, suas capacidades de agir como um ser humano decente. Sabe, daqueles que não culpabilizam os outros, muito menos jovens desprovidos de poder, pelas suas responsabilidades.

Como qualquer aprendizado, às vezes, a gente esquece. Hoje, anos depois, me prejudiquei recentemente por confiar no profissionalismo de uma pessoa que eu não conheço, mas já saí considerando pacas. O motivo? Um grande gogó daquele lado e a minha terrível necessidade de acreditar que todo mundo sabe o que está fazendo. Somem a isso, essa síndrome de impostor e falta de confiança que acompanham tantas mulheres como eu. Que submundo é esse do meu inconsciente em que de repente todo mundo é f*** menos eu?!

Dificuldades em falar com segurança sobre o que eu sou capaz de fazer. Vender o meu peixe. Por um preço justo no meu trabalho. Parece que toda vez que eu esqueço o meu valor eu levo um tapa na cara dessa mão invisível que se tivesse voz estaria berrando: “Eles não sabem mais do que você!” Inclusive, tem um monte de gente menos qualificada que você nesse momento fazendo o que você quer fazer e ganhando por isso. Não é só uma frase bonita de instagram, é uma verdade que eu gostaria que todo mundo soubesse.

No ano da pandemia, do colapso econômico e político, da ruptura e da polarização, eu também escolhi um comportamento disruptivo: o de encerrar os vícios da insegurança na área profissional. Eu me comprometo, todos os dias, em não deixar nenhuma síndrome me impedir de fazer os trabalho que eu gosto — mesmo que ninguém veja, mesmo que ninguém pague. O compromisso é comigo mesma. Eu prometo sempre confiar em mim e me lembrar do valor do meu talento, dos meus esforços e do meu aprendizado. Também prometo me permitir experimentar. Tem funcionado pra mim e sinceramente espero que, de alguma forma, esse artigo funcione pra você.

Flavia Doria é jornalista e fundadora do aletraeffe.com

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