OLHARES FEMININOS

Yayoi Kusama, Mulher Infinita

Princesa das “polka dots” – bolinhas em bom português – é como ficou conhecida Yayoi Kusama, a artista mulher mais vendida no mundo. O que nem todos sabem, é que por detrás de sua estética divertida e colorida existe uma narrativa de conquista e emancipação feminina. Nascida no Japão provincial de 1929, ela teve que quebrar as regras desde cedo. Indo contra o desejo de sua família de fazer um bom casamento arranjado e ter filhos, foi sozinha para Nova Iorque perseguir a carreira artística. Através de diversas expressões como pintura, escultura, instalações e performances, ela atraiu o mundo para sua linguagem única que revela o mais íntimo de si explorando temas como medo, obsessões e sexualidade.

Eu conheci o trabalho de Kusama quando tive a oportunidade de visitar sua exposição no CCBB RJ, em 2013, e fiquei fascinada com a capacidade que as suas obras tinham de reter a nossa atenção. Não só nas populares salas espelhadas, cobertas da mesma estampa repetidas vezes, mas também na textura de suas telas, nos sentimos completamente absorvidos. Assim a nossa experiência como público se assemelha com a própria história de Kusuma, que explica a sua obsessão por bolinhas a partir de um alucinação que teve em sua infância. Ela conta que estava em um campo e se sentiu apavorada quando as flores começaram a conversar com ela. As cabeças das flores eram como pontinhos que se estendiam até se perder de vista enquanto ela se sentia desaparecendo em meio a um infinito de pontinhos. Um sentimento que ela descreve em algumas entrevistas como “auto obliteração”. Esse episódio assustador fez com que ela refletisse sobre si mesma como parte integrante de algo muito maior. Um pontinho no universo.

David ZWirner – KUSAMA -Sof Sculpture Mirrored Room

Desde então, ainda na criança, começou a desenhar e a desenvolver o que é hoje o extenso trabalho de uma mulher que buscou compreender e se apropriar das próprias fobias, transformando-as em arte. Através da repetição exaustiva ela toca em questões que remetem a episódios traumáticos. Ela conta que sua mãe, frustrada com a infidelidade do marido, a fez espionar o próprio pai em suas traições, o que a teria feito desenvolver uma aversão à sexo. “Phalic Girl” (1960), uma escultura de uma imagem feminina, é um exemplo das inúmeras das suas obras cobertas de figuras fálicas que a ajudaram a superar o medo. O convívio com outros artistas na Nova Iorque dos anos 60, no contexto da revolução sexual e da cultura vanguardista, proporcionou que Kusama fizesse imensas performances ligadas ao corpo e a nudez. Em um meio ainda muito masculino ela já trazia uma visão feminina sobre esses temas e se tornou a primeira mulher a representar o Japão na Viennice Bienalle, em 1966. Ela também foi a primeira pessoa a performar um casamento gay nos E.UA.

Os desafios de ser uma artista mulher em um mercado dominado por homens não se limitavam apenas às dificuldades em ganhar reconhecimento, mas significava também ter suas ideias roubadas por seus colegas e não poder fazer nada a respeito. Kusama assistiu artistas como Claes Oldenburg e seu amigo Andy Warhol plagiarem suas obras, mas o pior aconteceu quando ela criou o primeiro ambiente de quarto espelhado do mundo em 1965, precursor do seu “Infinity Mirror Rooms”. Seu conceito inovador colocou o público em uma experiência física de infinito nunca antes vista em uma exibição. Apenas alguns meses depois, em uma completa mudança de estilos, o artista avant-garde Lucas Samara exibiu o seu próprio quarto espelhado em uma galeria muito mais prestigiada. Sem suportar o ocorrido, ela se atira da janela de seu apartamento.

Mesmo sobrevivendo, Kasuma teve que enfrentar o julgamento moral de seu país conservador e até da própria mídia americana, que imensas vezes condenou sua utilização da nudez como uma busca por publicidade. A depressão fez com que ela voltasse para casa, onde sem apoio dos familiares mais uma vez tentou o suicídio. Foi então quando decidiu de iniciativa própria se internar em um hospital psiquiátrico em 1977 onde poderia continuar criando. Desde então, ela é acompanhada por um psicoterapeuta e todos os dias vai para o seu estúdio em Tokyo onde se compromete com uma rotina de produção artística. O reconhecimento internacional do seu trabalho veio muitos anos depois.

O conservadorismo do seu lugar de origem, o estigma das doenças mentais e a desigualdade de gênero não foram o suficiente para a calar. A paixão e a determinação infinita de Kusama em criar foram sempre mais fortes do que seus medos e todos os obstáculos em sua vida. Hoje, aos 91 anos, seu trabalho está nos principais museus e galerias do mundo. Além disso, ela também ganhou destaque na indústria da moda, tendo feito parcerias com marcas como Louis Vuitton. Ainda na ativa, ela continua vivendo em um hospital psiquiátrico.


Fontes:http://www.aletraeffe.com/yayoi-kusama/

Tate

Sotheby´s

BBC

FACMagazine

Flavia Doria é jornalista e fundadora do aletraeffe.com

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